Uma queda, um acidente de trânsito, uma pancada no esporte. O traumatismo cranioencefálico varia de uma concussão leve, que melhora em dias, a lesões graves que exigem UTI e cirurgia. O que define a conduta nas primeiras horas é reconhecer a gravidade — e saber quais sinais, mesmo após um trauma aparentemente leve, exigem retorno ao hospital.
Classificação
Baseia-se na Escala de Coma de Glasgow (3 a 15), avaliada no atendimento: - Leve (13–15): a grande maioria. Inclui a concussão. - Moderado (9–12). - Grave (3–8): coma; exige UTI neurológica.
TCE leve e concussão
Sintomas: dor de cabeça, tontura, náuseas, confusão breve, dificuldade de concentração, sensibilidade à luz e ao som, alteração do sono, irritabilidade. Perda de consciência pode ou não ocorrer. A tomografia é indicada conforme critérios (idade acima de 65, anticoagulantes, vômitos, perda de consciência, amnésia, sinais de fratura, mecanismo de alto impacto).
A maioria melhora em dias a semanas. O tratamento é repouso relativo (não absoluto), retorno gradual às atividades cognitivas e físicas, sono adequado, evitar álcool, telas e esforço intenso nos primeiros dias. Sintomas persistentes além de semanas (síndrome pós-concussional) merecem acompanhamento.
Sinais de alerta após qualquer trauma de crânio
Retorne ao hospital imediatamente se, nas horas ou dias seguintes, surgir: - dor de cabeça que piora progressivamente; - vômitos repetidos; - sonolência excessiva, dificuldade para acordar; - confusão, fala arrastada, comportamento estranho; - fraqueza ou dormência em braço ou perna; - convulsão; - pupilas de tamanhos diferentes; - saída de líquido claro ou sangue pelo nariz ou ouvido; - em idosos e anticoagulados: qualquer mudança, mesmo semanas depois (risco de hematoma subdural crônico).
O que acontece no cérebro
A lesão pode ser focal (contusão, hematoma epidural, subdural ou intracerebral, fratura com afundamento) ou difusa (lesão axonal difusa, por aceleração e desaceleração, típica de acidentes de trânsito). Após a lesão inicial, o inchaço (edema) e o aumento da pressão dentro do crânio causam a lesão secundária — que é o principal alvo do tratamento intensivo.
Tratamento do TCE moderado e grave
- UTI com monitorização, frequentemente com sensor de pressão intracraniana.
- Controle da pressão intracraniana: elevação da cabeceira, sedação, controle de temperatura e de CO₂, soluções hipertônicas, drenagem de líquor.
- Cirurgia: drenagem de hematomas com efeito compressivo, elevação de fraturas afundadas, e craniectomia descompressiva (retirada de parte do osso do crânio para dar espaço ao cérebro inchado) em pressão intracraniana refratária. O osso é recolocado meses depois.
- Prevenção de complicações: convulsões, trombose, infecções, úlceras.
Recuperação e reabilitação
A recuperação após TCE grave é longa e ocorre ao longo de meses a anos. Reabilitação multidisciplinar (fisioterapia, fonoaudiologia, terapia ocupacional, neuropsicologia) começa na UTI e continua ambulatorialmente. Sequelas possíveis incluem alterações motoras, cognitivas (memória, atenção, planejamento), de comportamento e de humor. A idade, a gravidade inicial, a duração do coma e a presença de lesões secundárias influenciam o prognóstico.
Prevenção
Capacete em motos e bicicletas, cinto de segurança, cadeirinhas infantis, prevenção de quedas em idosos (a principal causa de TCE nessa faixa), moderação de álcool, e protocolos de concussão no esporte (afastamento após concussão, retorno gradual).
Quando procurar o especialista
Todo trauma de crânio com perda de consciência, vômitos, confusão ou em pessoa idosa ou anticoagulada deve ser avaliado em pronto-socorro. Após TCE moderado ou grave, o acompanhamento neurocirúrgico e de reabilitação é contínuo. Após concussão com sintomas persistentes por mais de duas semanas, agende avaliação.
Perguntas frequentes
Devo acordar a pessoa de hora em hora à noite? Não é mais recomendado como rotina; observe se ela acorda normalmente e procure atendimento se houver dificuldade para despertar.
Concussões repetidas são perigosas? Sim. Aumentam o risco de sintomas prolongados e de alterações crônicas. Atletas devem respeitar protocolos de retorno.
Quanto tempo leva para voltar ao normal após TCE grave? Meses a anos; a maior parte da recuperação ocorre no primeiro ano, mas ganhos podem continuar depois.
Este conteúdo é educativo e não substitui a consulta médica. Cada caso deve ser avaliado individualmente.
Referências
- Carney N, Totten AM, O'Reilly C, et al. Guidelines for the management of severe traumatic brain injury, fourth edition. Neurosurgery. 2017;80(1):6-15. PMID: 27654000. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/27654000/
- Hutchinson PJ, Kolias AG, Timofeev IS, et al. Trial of decompressive craniectomy for traumatic intracranial hypertension. N Engl J Med. 2016;375(12):1119-1130. PMID: 27602507. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/27602507/
- Maas AIR, Menon DK, Adelson PD, et al. Traumatic brain injury: integrated approaches to improve prevention, clinical care, and research. Lancet Neurol. 2017;16(12):987-1048. PMID: 29122524. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/29122524/

