Um idoso bateu a cabeça há três semanas, sem grande alarme. Agora está mais lento, confuso, com dor de cabeça e dificuldade para caminhar — e a família atribui à idade. A tomografia mostra um hematoma subdural crônico, uma das condições neurocirúrgicas mais comuns e mais tratáveis em pessoas acima de 65 anos. Reconhecer o quadro é o que separa a recuperação completa de uma evolução perigosa.

O que é

Um acúmulo de sangue entre a dura-máter (membrana externa) e a superfície do cérebro. Vem de pequenas veias que atravessam esse espaço e se rompem com movimentos bruscos da cabeça. Com a idade, o cérebro perde volume, essas veias ficam mais estiradas e o espaço maior permite que o sangue se acumule por dias sem sintomas.

Agudo x crônico

Hematoma subdural agudo. Após trauma significativo (acidente, queda de altura), com sintomas em horas: dor de cabeça intensa, vômitos, sonolência, rebaixamento da consciência, fraqueza em um lado. Emergência que frequentemente exige cirurgia imediata.

Hematoma subdural crônico. Após trauma leve, muitas vezes esquecido, em pessoas idosas ou em uso de anticoagulantes e antiagregantes. Os sintomas aparecem de forma insidiosa, 2 a 8 semanas depois, e são facilmente confundidos com demência, AVC ou "envelhecimento".

Sintomas do hematoma crônico

  • Dor de cabeça persistente.
  • Lentidão, sonolência, confusão, alteração de memória.
  • Dificuldade para caminhar, desequilíbrio, quedas.
  • Fraqueza ou dormência em um lado do corpo.
  • Alteração de fala.
  • Em casos avançados, sonolência profunda e coma.

Fatores de risco

Idade acima de 65 anos, uso de anticoagulantes (varfarina, novos anticoagulantes) ou antiagregantes (AAS, clopidogrel), consumo de álcool, quedas repetidas, atrofia cerebral, uso de válvula de hidrocefalia, distúrbios de coagulação.

Diagnóstico

Tomografia de crânio sem contraste. Em hematomas crônicos, o sangue pode ter a mesma densidade do cérebro ("isodenso") e exigir olhar atento ou ressonância.

Tratamento

Observação. Hematomas pequenos, sem sintomas ou com sintomas mínimos, podem ser acompanhados com tomografias seriadas; alguns se reabsorvem.

Cirurgia. Indicada em hematomas com sintomas ou com efeito de compressão na imagem. No crônico, o procedimento mais comum é a trepanação: um ou dois pequenos orifícios no crânio, sob anestesia local ou geral, por onde o hematoma liquefeito é drenado e lavado; um dreno pode ser deixado por 1 a 2 dias, o que reduz a recorrência. A melhora costuma ser rápida e marcante. No agudo, faz-se craniotomia para remover o coágulo sólido.

Embolização da artéria meníngea média. Técnica mais recente, por cateter, que oclui os pequenos vasos que alimentam a membrana do hematoma; ensaios randomizados recentes mostraram redução da recorrência quando associada à cirurgia ou em casos selecionados.

Manejo dos anticoagulantes. Suspensão e reversão na fase aguda; a decisão sobre quando reintroduzir é individualizada, pesando o risco de trombose.

Recorrência

Ocorre em 10% a 20% dos hematomas crônicos operados, mais em pacientes anticoagulados e com hematomas grandes. Por isso o acompanhamento com imagem nas semanas seguintes é importante.

Prevenção

Prevenção de quedas em idosos (iluminação, tapetes, calçados, revisão de medicamentos que causam tontura), uso criterioso de anticoagulantes com monitoramento, moderação de álcool. Após qualquer trauma de crânio em idoso ou anticoagulado, mesmo leve, a tomografia é recomendada e a família deve observar sinais nas semanas seguintes.

Quando procurar o especialista

Procure emergência se, após trauma de crânio, houver dor de cabeça intensa, vômitos, sonolência, confusão ou fraqueza. Procure avaliação em dias se um idoso apresenta lentidão, confusão, dificuldade para caminhar ou dor de cabeça nova, mesmo sem lembrar de trauma — especialmente se usa anticoagulante.

Perguntas frequentes

Uma pancada leve pode causar hematoma? Em idosos e anticoagulados, sim. Mesmo bater a cabeça em um armário.

A cirurgia é grande? A trepanação é um procedimento curto, frequentemente com anestesia local, e com recuperação rápida.

Vou poder voltar a tomar o anticoagulante? Na maioria dos casos, sim, após semanas, com decisão conjunta entre neurocirurgião e o médico que prescreve.


Este conteúdo é educativo e não substitui a consulta médica. Cada caso deve ser avaliado individualmente.

Referências

  1. Kolias AG, Chari A, Santarius T, Hutchinson PJ. Chronic subdural haematoma: modern management and emerging therapies. Nat Rev Neurol. 2014;10(10):570-578. PMID: 25224156. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/25224156/
  2. Santarius T, Kirkpatrick PJ, Ganesan D, et al. Use of drains versus no drains after burr-hole evacuation of chronic subdural haematoma: a randomised controlled trial. Lancet. 2009;374(9695):1067-1073. PMID: 19782872. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/19782872/
  3. Liu J, Ni W, Zuo Q, et al. Middle meningeal artery embolization for nonacute subdural hematoma. N Engl J Med. 2024;391(20):1901-1912. PMID: 39565989. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/39565989/