Uma dor no rosto tão intensa que já foi chamada de "a pior dor conhecida pela medicina": choques elétricos súbitos, de segundos, disparados por escovar os dentes, mastigar, falar, um toque leve na pele ou uma corrente de ar. Entre as crises, nada. A neuralgia do trigêmeo é rara, frequentemente confundida com problema dentário, e tem tratamentos muito eficazes — medicamentosos e cirúrgicos.

O que é

O nervo trigêmeo leva a sensibilidade do rosto ao cérebro, com três ramos: testa e olho, bochecha e maxilar superior, mandíbula. Na neuralgia clássica, uma artéria (geralmente a cerebelar superior) pulsa contra a raiz do nervo perto do tronco cerebral, desgastando sua capa protetora (mielina) e provocando descargas anormais. Em uma minoria, a causa é outra: esclerose múltipla, tumor comprimindo o nervo, ou nenhuma causa identificável.

Como reconhecer

  • Dor em choque, facada ou queimação súbita, de segundos a dois minutos.
  • Em um lado do rosto, nos territórios do segundo e terceiro ramos (bochecha, maxilar, mandíbula, dentes) na maioria.
  • Gatilhos: mastigar, falar, escovar dentes, barbear, lavar o rosto, vento, toque leve em "zonas-gatilho".
  • Crises em salvas, várias por dia, com períodos de remissão de semanas a meses.
  • Sem alteração de sensibilidade entre as crises na forma clássica.
  • Em uma parte dos pacientes, uma dor de fundo contínua se soma aos choques.

Muitos pacientes passam por extrações dentárias desnecessárias antes do diagnóstico.

Diagnóstico

Clínico, pela descrição típica. A ressonância com sequências específicas mostra o contato entre vaso e nervo e afasta tumores e esclerose múltipla. O exame neurológico é normal na forma clássica; alterações de sensibilidade sugerem causa secundária.

Tratamento medicamentoso: primeira linha

Carbamazepina (ou oxcarbazepina) é o tratamento de escolha, com resposta em cerca de 70% a 90% dos pacientes — a resposta, aliás, ajuda a confirmar o diagnóstico. Iniciada em dose baixa e aumentada gradualmente; exige exames de sangue periódicos (sódio, hemograma, função hepática). Efeitos: sonolência, tontura, náuseas. Alternativas ou associações: lamotrigina, baclofeno, gabapentina, entre outros. Ao longo dos anos, parte dos pacientes perde resposta ou não tolera as doses.

Tratamentos cirúrgicos

Indicados quando a medicação falha ou os efeitos adversos são intoleráveis:

Descompressão microvascular. Por uma pequena craniotomia atrás da orelha, o neurocirurgião afasta a artéria do nervo e interpõe um material protetor. Trata a causa, preserva a sensibilidade e tem os melhores resultados de longo prazo (alívio inicial em cerca de 90%, mantido em 70% a 80% após 10 anos). Exige anestesia geral e alguns dias de internação; riscos incluem perda auditiva do lado operado, vazamento de líquor e, raramente, complicações maiores.

Procedimentos percutâneos. Por agulha, através da bochecha, até o gânglio do trigêmeo: radiofrequência (calor), compressão por balão ou glicerol. Rápidos, com anestesia leve, indicados para pacientes idosos ou que não podem operar. Alívio imediato na maioria, com dormência facial como efeito esperado e recorrência mais frequente que na descompressão.

Radiocirurgia (Gamma Knife). Radiação focalizada na raiz do nervo, sem corte. Alívio gradual em semanas a meses; boa opção para quem não quer ou não pode operar; recorrência e dormência em parte dos casos.

Quando procurar o especialista

Se você tem dor facial em choque disparada por toque, mastigação ou fala, procure avaliação — antes de qualquer procedimento dentário. Se já usa medicação e a dor voltou ou os efeitos adversos limitam a vida, agende consulta com neurocirurgião para discutir as opções cirúrgicas.

Perguntas frequentes

Neuralgia do trigêmeo tem cura? A descompressão microvascular oferece alívio duradouro à maioria; os demais tratamentos controlam com possibilidade de recorrência.

É uma dor psicológica? Não. Tem causa física identificável na maioria dos casos.

Posso parar a carbamazepina se a dor sumir? Remissões espontâneas ocorrem; a redução deve ser gradual e orientada.


Este conteúdo é educativo e não substitui a consulta médica. Cada caso deve ser avaliado individualmente.

Referências

  1. Bendtsen L, Zakrzewska JM, Abbott J, et al. European Academy of Neurology guideline on trigeminal neuralgia. Eur J Neurol. 2019;26(6):831-849. PMID: 30860637. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/30860637/
  2. Cruccu G, Di Stefano G, Truini A. Trigeminal neuralgia. N Engl J Med. 2020;383(8):754-762. PMID: 32813951. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/32813951/
  3. Barker FG 2nd, Jannetta PJ, Bissonette DJ, et al. The long-term outcome of microvascular decompression for trigeminal neuralgia. N Engl J Med. 1996;334(17):1077-1083. PMID: 8598865. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/8598865/