"Abrir a cabeça" é a imagem que assusta. A craniotomia — a abertura temporária de uma porção do osso do crânio para acessar o cérebro — é o procedimento fundamental da neurocirurgia, realizado há mais de um século e transformado pela tecnologia nas últimas décadas. Entender cada etapa reduz o medo e prepara paciente e família para o que virá.
Para que serve
Tumores cerebrais, aneurismas e malformações vasculares, hematomas, epilepsia refratária, abscessos, algumas formas de hidrocefalia, traumatismos com fratura ou hematoma, e a craniectomia descompressiva (retirada temporária do osso para aliviar pressão em inchaços graves).
Antes da cirurgia
Ressonância ou tomografia de planejamento, frequentemente com sequências para navegação e para mapear áreas de fala e movimento (ressonância funcional, tractografia). Avaliação clínica e anestésica. Em cirurgias próximas a áreas eloquentes, discute-se a cirurgia com paciente acordado. Medicamentos são ajustados (anticoagulantes suspensos, anticonvulsivantes mantidos ou iniciados). Em alguns casos, apenas uma faixa de cabelo é raspada.
Durante a cirurgia
- Anestesia geral (ou sedação com despertar controlado, na cirurgia acordada).
- Posicionamento da cabeça em um fixador, e registro para a neuronavegação — o "GPS" que mostra em tempo real onde estão os instrumentos sobre a imagem do paciente.
- Incisão no couro cabeludo, planejada para ficar atrás da linha do cabelo sempre que possível.
- Abertura óssea: um retalho de osso é cortado com brocas e serras especiais e removido temporariamente.
- Abertura da dura-máter, a membrana que envolve o cérebro.
- Etapa principal: remoção do tumor, clipagem do aneurisma, drenagem do hematoma — sob microscópio ou endoscópio, com monitorização neurofisiológica que alerta sobre qualquer sofrimento de vias nervosas, e, em tumores, com fluorescência ou ultrassom para delimitar a lesão.
- Fechamento: dura-máter suturada (às vezes com enxerto), osso recolocado e fixado com miniplacas de titânio, couro cabeludo suturado.
Dura de 2 a 8 horas, conforme a complexidade.
Após a cirurgia
- UTI por 24 a 48 horas para monitoramento.
- Tomografia ou ressonância de controle nas primeiras 24 a 72 horas.
- Dor de cabeça, cansaço e inchaço ao redor dos olhos são esperados nos primeiros dias.
- Internação total de 3 a 7 dias na maioria dos casos.
- Retirada de pontos ou grampos em 7 a 14 dias.
Recuperação em casa
Nas primeiras semanas: repouso relativo com caminhadas, evitar esforço, dirigir e álcool; cuidado com a ferida; medicação conforme prescrição (anticonvulsivantes, corticoide em desmame, analgésicos). Retorno a atividades leves em 2 a 4 semanas; trabalho em 4 a 8 semanas; atividades intensas após liberação. Fisioterapia, fonoaudiologia ou terapia ocupacional quando há déficits. Fadiga pode persistir por semanas a meses.
Riscos
Infecção, sangramento, convulsões, vazamento de líquor, déficits neurológicos temporários ou permanentes (dependem da localização), trombose, complicações anestésicas. Com as técnicas atuais de mapeamento e monitorização, a taxa de déficits permanentes em cirurgias planejadas é baixa. O cirurgião deve apresentar os riscos específicos da sua cirurgia.
Sinais de alerta no pós-operatório
Febre, saída de líquido claro ou secreção pela ferida, dor de cabeça intensa e progressiva, vômitos, sonolência excessiva, confusão, convulsão, fraqueza ou alteração de fala novas. Exigem contato imediato com a equipe ou pronto-socorro.
Quando procurar o especialista
Se você tem cirurgia cerebral indicada, use a consulta pré-operatória para entender o planejamento, as tecnologias que serão usadas, os riscos específicos e o plano de recuperação. Uma segunda opinião é apropriada em cirurgias eletivas.
Perguntas frequentes
Vou sentir dor durante a cirurgia acordada? Não. O cérebro não tem receptores de dor; couro cabeludo e meninges são anestesiados.
O osso volta ao normal? Sim, é fixado com placas e consolida em meses. Na craniectomia descompressiva, é recolocado em cirurgia posterior.
Vou ficar com deformidade? As placas são pequenas e a cicatriz fica sob o cabelo na maioria das vezes.
Este conteúdo é educativo e não substitui a consulta médica. Cada caso deve ser avaliado individualmente.
Referências
- Stummer W, Pichlmeier U, Meinel T, et al. Fluorescence-guided surgery with 5-aminolevulinic acid for resection of malignant glioma: a randomised controlled multicentre phase III trial. Lancet Oncol. 2006;7(5):392-401. PMID: 16648043. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/16648043/
- Hervey-Jumper SL, Li J, Lau D, et al. Awake craniotomy to maximize glioma resection: methods and technical nuances over a 27-year period. J Neurosurg. 2015;123(2):325-339. PMID: 25909573. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/25909573/
- Weller M, et al. EANO guidelines on the diagnosis and treatment of diffuse gliomas of adulthood. Nat Rev Clin Oncol. 2021;18(3):170-186. PMID: 33293629. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/33293629/

