Tontura é uma das queixas mais comuns em consultórios e prontos-socorros — e uma das mais imprecisas, porque a mesma palavra descreve sensações diferentes: o mundo girando, a cabeça leve, o desequilíbrio ao andar, a visão escurecendo ao levantar. Cada uma aponta para causas diferentes. A grande maioria é benigna e vem do ouvido interno; uma minoria é neurológica e exige atendimento imediato.

Primeiro, que tipo de tontura

  • Vertigem: sensação de rotação (própria ou do ambiente). Origem no sistema vestibular — ouvido interno ou suas conexões no tronco cerebral e cerebelo.
  • Pré-síncope: sensação de desmaio iminente, visão escurecendo, ao levantar. Origem cardiovascular (queda de pressão, arritmia).
  • Desequilíbrio: instabilidade ao andar, sem rotação. Origem neurológica, vestibular crônica, cervical ou por neuropatia.
  • Tontura inespecífica ("cabeça leve"): frequentemente ansiedade, hiperventilação, medicamentos.

As causas mais comuns de vertigem

  • VPPB (vertigem posicional paroxística benigna): crises curtas (segundos) ao virar na cama, deitar ou olhar para cima; a causa mais frequente; tratada com manobras de reposicionamento.
  • Neurite vestibular: vertigem intensa e contínua por dias, com náuseas, após infecção viral; melhora em semanas com reabilitação.
  • Doença de Ménière: crises de horas com zumbido, sensação de ouvido cheio e perda auditiva flutuante.
  • Migrânea vestibular: vertigem em quem tem enxaqueca, com ou sem dor de cabeça.
  • Tontura cervicogênica: instabilidade associada a dor e rigidez no pescoço.

Quando a tontura é neurológica — sinais de alerta

Procure atendimento imediato (192) se a tontura vier com: - dor de cabeça súbita e intensa; - alteração de fala, visão dupla, dificuldade para engolir; - fraqueza ou dormência em um lado do corpo ou do rosto; - desequilíbrio intenso que impede ficar em pé; - vertigem contínua com incapacidade de olhar fixamente para um ponto ou com movimentos oculares anormais; - início súbito em pessoa com fatores de risco vascular (idade, hipertensão, diabetes, tabagismo). AVC do tronco cerebral ou do cerebelo pode se manifestar como vertigem isolada; o exame neurológico e, quando indicado, a ressonância diferenciam. Tumores da fossa posterior, esclerose múltipla e outras condições também causam tontura, geralmente com outros sinais.

Diagnóstico

História detalhada (tipo, duração, gatilhos, sintomas associados) é o mais importante; exame vestibular com manobras (Dix-Hallpike para VPPB) e testes de movimento ocular; exame neurológico; audiometria e avaliação otoneurológica quando há suspeita de ouvido interno; ressonância quando há sinais neurológicos. Tomografia tem baixa sensibilidade para o tronco e o cerebelo.

Tratamento

Depende da causa: manobras para VPPB; reabilitação vestibular para neurite e vestibulopatias crônicas; medicação para Ménière e migrânea; tratamento da cervical; ajuste de medicamentos e hidratação na pré-síncope; abordagem da ansiedade. Medicamentos "para labirintite" (supressores vestibulares) aliviam crises agudas, mas o uso prolongado atrasa a compensação e não é recomendado.

Quando a neurocirurgia entra

Tumores do ângulo pontocerebelar (schwannoma vestibular, meningioma), lesões do cerebelo, hidrocefalia, malformação de Chiari, compressão vascular do nervo vestibular (rara).

Quando procurar o especialista

Tontura com qualquer sinal de alerta: emergência. Vertigem recorrente ou persistente: otorrinolaringologista ou neurologista. Tontura com desequilíbrio progressivo, dor de cabeça ao esforço ou achados em exames de imagem: neurocirurgião.

Perguntas frequentes

"Labirintite" é o diagnóstico mais comum? O termo é usado de forma genérica; a maioria das vertigens é VPPB ou neurite, não labirintite verdadeira.

Tontura pode ser da cervical? Pode, como diagnóstico de exclusão, quando há dor cervical e nenhuma outra causa.

Preciso de ressonância em toda tontura? Não; apenas com sinais neurológicos ou evolução atípica.


Este conteúdo é educativo e não substitui a consulta médica. Cada caso deve ser avaliado individualmente.

Referências

  1. Kattah JC, Talkad AV, Wang DZ, et al. HINTS to diagnose stroke in the acute vestibular syndrome. Stroke. 2009;40(11):3504-3510. PMID: 19762709. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/19762709/
  2. Bhattacharyya N, Gubbels SP, Schwartz SR, et al. Clinical practice guideline: benign paroxysmal positional vertigo (update). Otolaryngol Head Neck Surg. 2017;156(3 Suppl):S1-S47. PMID: 28248609. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/28248609/
  3. Li Y, Peng B. Pathogenesis, diagnosis, and treatment of cervical vertigo. Pain Physician. 2015;18(4):E583-E595. PMID: 26218949. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/26218949/