Uma crise convulsiva em quem nunca teve — no trabalho, em casa, em um restaurante — é um evento que muda o dia de todos ao redor. A maioria das pessoas se recupera em minutos, mas a primeira crise em adulto sempre exige investigação: pode ser um episódio isolado e provocado, ou o primeiro sinal de epilepsia, de um tumor, de uma lesão vascular ou de uma condição sistêmica. Saber o que fazer na hora e o que esperar depois reduz o pânico e evita erros.
O que fazer durante a crise
- Mantenha a calma e afaste objetos que possam machucar.
- Deite a pessoa de lado, com algo macio sob a cabeça.
- Não coloque nada na boca (não há risco de "engolir a língua"; há risco de fratura de dentes e mordida).
- Não segure os movimentos.
- Marque o tempo: crises com mais de 5 minutos, crises repetidas sem recuperação, dificuldade para respirar após a crise, crise na água, em gestante ou com lesão são motivos para chamar 192 imediatamente.
- Fique ao lado até a recuperação completa; confusão e sonolência por minutos a uma hora são normais.
- Filme, se possível: o vídeo ajuda o médico a classificar a crise.
Toda primeira crise deve ser avaliada
Mesmo com recuperação completa, a pessoa deve ser levada ao pronto-socorro ou avaliada em horas: exame neurológico, exames de sangue (glicose, sódio, cálcio, função renal, toxicológico quando indicado), eletrocardiograma, e tomografia na urgência; a ressonância e o eletroencefalograma são feitos em seguida. O objetivo é diferenciar crise provocada de não provocada e identificar lesões estruturais.
Crise provocada x não provocada
Provocada: por causa aguda identificável — abstinência ou intoxicação alcoólica, drogas, alterações metabólicas (glicose, sódio), febre alta, privação extrema de sono, AVC agudo, trauma, infecção do sistema nervoso, medicamentos. Trata-se a causa; o risco de recorrência é baixo se a causa não se repetir.
Não provocada: sem causa aguda. Risco de nova crise em torno de 40% a 50% em 2 anos, maior se houver lesão na imagem, alteração no EEG ou crise durante o sono. Duas crises não provocadas (ou uma com alto risco de recorrência) definem epilepsia.
O que a investigação pode encontrar
Em adultos, sobretudo acima de 40 anos, a primeira crise merece atenção a causas estruturais: tumores cerebrais (gliomas de baixo grau e meningiomas frequentemente se manifestam por crise), malformações vasculares (cavernoma, MAV), sequelas de AVC, esclerose hipocampal, displasias corticais. A ressonância com protocolo de epilepsia é o exame que as identifica.
Tratar ou não após a primeira crise
A decisão de iniciar anticonvulsivante após uma única crise não provocada pesa o risco de recorrência (lesão na imagem, EEG alterado), as consequências de uma nova crise (dirigir, trabalho, segurança) e a preferência do paciente. Iniciar cedo reduz recorrência nos primeiros anos, sem mudar o prognóstico de longo prazo — por isso é uma decisão individual.
Restrições após a crise
Não dirigir até liberação (a legislação brasileira exige período sem crises, em geral 12 meses com tratamento ou conforme avaliação); evitar altura, máquinas perigosas, natação sozinho; dormir bem; evitar álcool em excesso.
Quando a neurocirurgia entra
Quando a investigação encontra tumor, malformação vascular ou lesão cirúrgica; e na epilepsia refratária a medicamentos, quando a cirurgia pode controlar as crises.
Quando procurar o especialista
Toda primeira crise: pronto-socorro e, depois, neurologista. Se a ressonância mostrou lesão: neurocirurgião. Crises que persistem apesar de dois medicamentos: centro de epilepsia.
Perguntas frequentes
Uma crise significa epilepsia? Não necessariamente; epilepsia exige recorrência ou alto risco de recorrência.
Estresse causa convulsão? Pode reduzir o limiar em quem tem predisposição; isoladamente, raramente causa.
Posso ter tido crise dormindo sem saber? Sim; mordida na língua, dor muscular, incontinência ao acordar e confusão matinal são pistas.
Este conteúdo é educativo e não substitui a consulta médica. Cada caso deve ser avaliado individualmente.
Referências
- Krumholz A, Wiebe S, Gronseth GS, et al. Evidence-based guideline: management of an unprovoked first seizure in adults. Neurology. 2015;84(16):1705-1713. PMID: 25901057. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/25901057/
- Fisher RS, Acevedo C, Arzimanoglou A, et al. ILAE official report: a practical clinical definition of epilepsy. Epilepsia. 2014;55(4):475-482. PMID: 24730690. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/24730690/
- Marson A, Jacoby A, Johnson A, et al. Immediate versus deferred antiepileptic drug treatment for early epilepsy and single seizures: a randomised controlled trial. Lancet. 2005;365(9476):2007-2013. PMID: 15950714. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/15950714/

