O cérebro produz continuamente um líquido — o líquor — que circula por cavidades internas (ventrículos) e ao redor do cérebro e da medula, sendo reabsorvido na mesma velocidade em que é produzido. Quando esse equilíbrio se rompe, o líquido se acumula e os ventrículos se dilatam: é a hidrocefalia. Ocorre em bebês, em adultos após hemorragias ou tumores, e em idosos de uma forma peculiar que imita demência — e que é tratável.

Tipos

  • Obstrutiva: algo bloqueia a circulação do líquor (tumor, cisto, estreitamento congênito do aqueduto, hemorragia).
  • Comunicante: a circulação está livre, mas a reabsorção falha (após hemorragia subaracnóidea, meningite, ou sem causa identificada).
  • Congênita: presente ao nascimento, associada a malformações como espinha bífida.
  • Hidrocefalia de pressão normal (HPN): em idosos, com pressão do líquor dentro da faixa normal na maior parte do tempo, mas ventrículos dilatados e sintomas típicos.

Sintomas

Bebês: crescimento rápido da cabeça, fontanela abaulada, irritabilidade, vômitos, olhos desviados para baixo ("olhar em sol poente"), atraso de desenvolvimento.

Crianças e adultos (hidrocefalia aguda): dor de cabeça progressiva, náuseas e vômitos, sonolência, alteração visual, desequilíbrio, e, em casos graves, rebaixamento da consciência — emergência.

Idosos (HPN) — a tríade clássica: 1. Alteração da marcha: passos curtos, arrastados, pés "colados" ao chão, dificuldade para iniciar o movimento e virar — geralmente o primeiro sinal. 2. Declínio cognitivo: lentidão, dificuldade de atenção e memória, apatia. 3. Incontinência urinária: urgência, depois perda involuntária. A HPN é frequentemente confundida com Alzheimer ou Parkinson. Diferente dessas, pode melhorar substancialmente com tratamento.

Diagnóstico

Tomografia ou ressonância mostram a dilatação dos ventrículos. Na HPN, além da imagem, faz-se o teste de retirada de líquor (tap test): retira-se uma quantidade de líquor por punção lombar e avalia-se a marcha e a cognição antes e depois; melhora clara prediz boa resposta à cirurgia. Em casos duvidosos, drenagem lombar por alguns dias ou monitorização de pressão.

Tratamento

Derivação (válvula). O tratamento mais usado: um cateter drena o líquor dos ventrículos para outra cavidade do corpo — geralmente o abdome (derivação ventrículo-peritoneal, DVP) —, passando por uma válvula que regula o fluxo. As válvulas modernas são ajustáveis externamente com ímã, permitindo calibrar a drenagem sem nova cirurgia. A cirurgia dura cerca de uma hora; a internação, poucos dias.

Terceiro-ventriculostomia endoscópica. Na hidrocefalia obstrutiva, cria-se por endoscopia uma abertura no assoalho do terceiro ventrículo, restabelecendo a circulação sem implante. Evita as complicações da válvula em pacientes selecionados.

Tratamento da causa (tumor, cisto) quando aplicável.

Complicações da válvula

Obstrução (o sistema entope), infecção (mais comum nos primeiros meses), drenagem excessiva (dor de cabeça ao ficar em pé, hematoma subdural) ou insuficiente. Sinais de mau funcionamento — retorno dos sintomas, dor de cabeça, vômitos, sonolência, febre — exigem avaliação urgente. Muitos pacientes precisam de revisão do sistema ao longo da vida.

HPN: o que esperar

Com boa seleção (tap test positivo, sintomas de curta duração, marcha como sintoma dominante), a maioria dos pacientes melhora, sobretudo a marcha e a continência; a cognição melhora em proporção menor. Quanto mais precoce o tratamento, melhor a resposta.

Quando procurar o especialista

Procure avaliação neurocirúrgica se um exame mostrou dilatação dos ventrículos, se um idoso apresenta alteração de marcha com passos curtos associada a esquecimento e incontinência, ou se um portador de válvula tem dor de cabeça, vômitos, sonolência ou febre. Em bebês, crescimento rápido da cabeça e fontanela tensa são sinais de urgência.

Perguntas frequentes

Válvula é para sempre? Na maioria dos casos, sim. Precisa de acompanhamento e, às vezes, revisões.

Posso fazer ressonância com válvula? Sim; válvulas ajustáveis devem ser reprogramadas após o exame — informe o serviço.

HPN é demência? É uma causa potencialmente reversível de declínio cognitivo. Merece investigação em todo idoso com a tríade.


Este conteúdo é educativo e não substitui a consulta médica. Cada caso deve ser avaliado individualmente.

Referências

  1. Relkin N, Marmarou A, Klinge P, et al. Diagnosing idiopathic normal-pressure hydrocephalus. Neurosurgery. 2005;57(3 Suppl):S4-S16. PMID: 16160425. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/16160425/
  2. Kahle KT, Kulkarni AV, Limbrick DD Jr, Warf BC. Hydrocephalus in children. Lancet. 2016;387(10020):788-799. PMID: 26256071. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/26256071/
  3. Nakajima M, Yamada S, Miyajima M, et al. Guidelines for management of idiopathic normal pressure hydrocephalus (third edition). Neurol Med Chir (Tokyo). 2021;61(2):63-97. PMID: 33455998. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/33455998/