Duas dores lombares podem ter a mesma intensidade e localização e ter origens opostas: uma vem de sobrecarga de estruturas (mecânica), a outra de inflamação autoimune (inflamatória). A primeira melhora com repouso; a segunda, com movimento. Reconhecer o padrão é o primeiro passo — e o que mais atrasa o diagnóstico da espondiloartrite é tratá-la como dor mecânica por anos.

Dor mecânica (cerca de 90% dos casos)

  • Início frequentemente ligado a esforço, postura ou movimento.
  • Piora com atividade, ao final do dia, em determinadas posições.
  • Melhora com repouso relativo e com posições de alívio.
  • Rigidez matinal breve (minutos).
  • Raramente acorda à noite; se acorda, ao virar na cama.
  • Episódica, com crises e melhoras.
  • Qualquer idade; mais após os 30.
  • Origem: músculos, disco, facetas, sacroilíaca (por sobrecarga), hérnia, estenose.

Dor inflamatória (espondiloartrites)

  • Início insidioso, sem evento desencadeante, há mais de 3 meses.
  • Começa antes dos 40 a 45 anos.
  • Rigidez matinal acima de 30 minutos, às vezes horas.
  • Melhora com exercício e piora com repouso.
  • Acorda na segunda metade da noite, com melhora ao levantar e andar.
  • Dor alternante nos glúteos (sacroileíte).
  • Boa resposta a anti-inflamatórios.
  • Associações: uveíte (olho vermelho doloroso), psoríase, doença inflamatória intestinal, dor no calcanhar, artrite em joelhos ou tornozelos, histórico familiar. Quatro ou mais dessas características em dor há mais de 3 meses tornam a origem inflamatória provável.

Por que importa

A dor mecânica é tratada com exercício, educação e, quando necessário, procedimentos e cirurgia. A inflamatória é tratada pelo reumatologista com anti-inflamatórios e, quando necessário, imunobiológicos — que mudaram o prognóstico da espondilite anquilosante, sobretudo com diagnóstico precoce. A demora média até o diagnóstico ainda é de 5 a 7 anos em muitos países.

Como se investiga a suspeita inflamatória

Exame físico (mobilidade da coluna, sacroilíacas, articulações periféricas), exames de sangue (PCR, VHS, HLA-B27), ressonância das sacroilíacas (detecta inflamação anos antes da radiografia). O especialista em coluna identifica o padrão e encaminha; o reumatologista confirma e trata.

Quando os dois coexistem

Pessoas com espondiloartrite também têm dor mecânica; e a coluna rígida da espondilite avançada é vulnerável a fraturas com traumas leves — o que exige atenção do cirurgião de coluna.

Quando procurar o especialista

Dor lombar há mais de 3 meses, iniciada antes dos 45 anos, com rigidez matinal prolongada e melhora com exercício: avaliação para investigar espondiloartrite. Dor mecânica com irradiação, déficit ou persistência: especialista em coluna.

Perguntas frequentes

Anti-inflamatório que resolve a dor "prova" que é inflamatória? Não prova, mas reforça a suspeita junto com os outros critérios.

Exercício piora a dor inflamatória? Não — melhora; é parte central do tratamento.

HLA-B27 positivo significa espondilite? Não; é um marcador de risco presente em parte da população sem doença.


Este conteúdo é educativo e não substitui a consulta médica. Cada caso deve ser avaliado individualmente.

Referências

  1. Sieper J, Poddubnyy D. Axial spondyloarthritis. Lancet. 2017;390(10089):73-84. PMID: 28110981. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/28110981/
  2. Rudwaleit M, et al. The development of ASAS classification criteria for axial spondyloarthritis (part II). Ann Rheum Dis. 2009;68(6):777-783. PMID: 19297344. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/19297344/
  3. Hartvigsen J, et al. What low back pain is and why we need to pay attention. Lancet. 2018;391:2356-2367. PMID: 29573870. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/29573870/