Uma incisão menor que 1 centímetro, uma câmera de alta definição, alta no mesmo dia e retorno às atividades leves em poucos dias. A cirurgia endoscópica de coluna transformou a forma de tratar hérnias de disco e alguns tipos de estenose — mas, como toda técnica, tem indicações precisas e limites. Este texto explica o que é, como é feita, o que a ciência mostra sobre resultados e em quais situações ela é a melhor escolha.

O que é a cirurgia endoscópica

É uma técnica minimamente invasiva em que o cirurgião acessa a coluna por um pequeno tubo (em geral com 7 a 10 mm de diâmetro) contendo uma câmera e um canal de trabalho. A imagem é projetada em um monitor com grande ampliação. Por esse acesso, retira-se o fragmento de disco que comprime o nervo ou amplia-se o espaço estreitado, com mínima agressão a músculos e ossos.

Existem duas vias principais: - Transforaminal: o acesso é pela lateral, através do "túnel" por onde a raiz nervosa sai. Frequentemente pode ser feito com sedação e anestesia local. - Interlaminar: o acesso é pela parte de trás, entre as lâminas das vértebras, semelhante ao caminho da microcirurgia, mas com incisão muito menor.

Há ainda a técnica biportal (UBE), que usa duas pequenas incisões — uma para a câmera, outra para os instrumentos — e amplia as possibilidades de descompressão.

Para quem é indicada

  • Hérnia de disco lombar com dor irradiada para a perna que não melhorou com tratamento conservador — a indicação mais consolidada.
  • Hérnia de disco cervical em casos selecionados.
  • Estenose foraminal ou de canal de grau leve a moderado, em pacientes selecionados.
  • Recidiva de hérnia após cirurgia prévia, em situações específicas.

Não é a técnica ideal quando há instabilidade (espondilolistese com movimento anormal), deformidade importante ou necessidade de fixação com parafusos.

O que a ciência mostra

Um ensaio clínico randomizado multicêntrico, publicado no BMJ em 2022, comparou a discectomia endoscópica transforaminal com a microdiscectomia convencional em 613 pacientes com ciática. Resultado: a endoscópica não foi inferior no alívio da dor na perna após um ano e apresentou resultados um pouco mais favoráveis em dor lombar, função e qualidade de vida — diferenças pequenas, mas consistentes. A taxa de reoperação foi semelhante (5% contra 6%). A análise econômica do mesmo estudo apontou a técnica endoscópica como mais custo-efetiva sob a perspectiva da sociedade, principalmente pelo retorno mais rápido ao trabalho.

Vantagens práticas

  • Incisão pequena e menor dano muscular.
  • Menos dor no pós-operatório imediato.
  • Menor sangramento e menor risco de infecção.
  • Alta em geral no mesmo dia ou em 24 horas.
  • Retorno a atividades leves em poucos dias e ao trabalho de escritório em uma a duas semanas.
  • Possibilidade de anestesia local com sedação em casos selecionados.

Limites e riscos

Nenhuma cirurgia é isenta de risco. Na endoscópica, as complicações possíveis incluem lesão da membrana que envolve os nervos (dural), irritação temporária da raiz nervosa com dormência, sangramento e, raramente, infecção. A curva de aprendizado do cirurgião é um fator importante: os resultados dependem da experiência com a técnica. Vale perguntar ao seu médico quantos casos ele realiza e qual a formação específica nessa área.

Como é a recuperação

Na maioria dos casos: caminhar no mesmo dia; evitar carregar peso e dirigir na primeira semana; retorno a atividades de escritório em uma a duas semanas; fisioterapia iniciada nas primeiras semanas para fortalecimento; retorno a exercícios de impacto em geral após seis a doze semanas, conforme orientação. O alívio da dor irradiada costuma ser imediato ou ocorrer nos primeiros dias; formigamento residual pode levar semanas a meses para desaparecer.

Endoscópica x microdiscectomia x artrodese

  • Microdiscectomia: usa microscópio e incisão de 2 a 3 cm. Técnica consagrada, excelentes resultados. A endoscópica é uma evolução com acesso menor.
  • Artrodese (fusão com parafusos): cirurgia maior, indicada quando há instabilidade ou deformidade. Não substitui nem é substituída pela endoscópica: são indicações diferentes.

Quando procurar o especialista

Se você tem dor irradiada por hérnia de disco há mais de seis semanas apesar de tratamento conservador, ou se recebeu indicação de cirurgia e quer saber se a via endoscópica se aplica ao seu caso, agende uma avaliação. O especialista analisa o tipo e a localização da hérnia, a presença de instabilidade e o seu perfil para definir a técnica mais adequada.

Perguntas frequentes

É a mesma coisa que "cirurgia a laser"? Não. A endoscópica remove mecanicamente o fragmento herniado sob visão direta. Procedimentos "a laser" são diferentes e têm indicações muito mais restritas.

Precisa de anestesia geral? Nem sempre. A via transforaminal pode ser feita com sedação e anestesia local; a interlaminar geralmente usa anestesia geral.

Cobertura por convênio? A técnica é reconhecida e coberta pela maioria dos planos, mediante indicação médica documentada.


Este conteúdo é educativo e não substitui a consulta médica. Cada caso deve ser avaliado individualmente.

Referências

  1. Gadjradj PS, Rubinstein SM, Peul WC, et al. Full endoscopic versus open discectomy for sciatica: randomised controlled non-inferiority trial. BMJ. 2022;376:e065846. PMID: 35190388. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/35190388/
  2. Gadjradj PS, Broulikova HM, van Dongen JM, et al. Cost-effectiveness of full endoscopic versus open discectomy for sciatica. Br J Sports Med. 2022;56(18):1018-1025. PMID: 35185010. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/35185010/
  3. Gadjradj PS, Harhangi BS. Full-endoscopic transforaminal discectomy versus open microdiscectomy for sciatica: update of a systematic review and meta-analysis. Spine. 2022;47(18):E591-E594. PMID: 35867477. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/35867477/
  4. Kreiner DS, et al. An evidence-based clinical guideline for the diagnosis and treatment of lumbar disc herniation with radiculopathy. Spine J. 2014;14(1):180-191. PMID: 24239490. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/24239490/