"Vou ter que colocar parafusos na coluna?" A artrodese — ou fusão vertebral — é a cirurgia de coluna que mais gera receio, e com razão: é um procedimento maior, com recuperação mais longa que a de uma hérnia simples. Mas, quando bem indicada, resolve problemas que nenhum outro tratamento resolve, como a instabilidade entre vértebras. Entender o que ela faz, para quem serve e o que esperar ajuda a decidir com segurança.
O que é a artrodese
É a união definitiva de duas ou mais vértebras, transformando um segmento móvel em um bloco único. O cirurgião coloca parafusos e hastes para fixar as vértebras e adiciona enxerto ósseo (do próprio paciente ou sintético) entre elas. Com o tempo — em geral 6 a 12 meses — o osso cresce e "solda" o segmento. Os parafusos funcionam como um andaime até que a fusão biológica aconteça.
Frequentemente, coloca-se entre as vértebras um espaçador (cage) preenchido com enxerto, que restaura a altura do disco e ajuda na fusão. Os nomes técnicos (TLIF, PLIF, ALIF, XLIF) descrevem apenas o caminho de acesso: por trás, pela frente ou pela lateral.
Quando é indicada
A artrodese trata instabilidade e deformidade, não a dor lombar comum. As indicações mais consolidadas são: - Espondilolistese com instabilidade (a vértebra "escorrega" e se move ao flexionar e estender). - Fraturas instáveis da coluna. - Deformidades como escoliose e cifose que exigem correção. - Estenose associada a instabilidade, quando a descompressão isolada deixaria o segmento solto. - Recidivas múltiplas de hérnia no mesmo nível, em casos selecionados. - Tumores e infecções que destroem a estrutura da vértebra.
Quando NÃO é a melhor escolha
Para hérnia de disco simples, estenose sem instabilidade e dor lombar degenerativa sem alteração estrutural clara, a artrodese raramente supera tratamentos menos invasivos. Um estudo randomizado sueco de referência mostrou que, na estenose lombar — mesmo com espondilolistese de baixo grau —, adicionar fusão à descompressão não trouxe benefício clínico adicional na maioria dos pacientes, com cirurgia mais longa e mais custosa. A decisão deve ser individualizada com base em exames dinâmicos e no exame físico.
Como é a recuperação
- Internação: em geral 2 a 4 dias.
- Caminhar: no primeiro ou segundo dia.
- Colete: nem sempre necessário; depende da técnica e da qualidade óssea.
- Trabalho de escritório: 4 a 6 semanas.
- Dirigir: em torno de 3 a 4 semanas.
- Atividades físicas de impacto: após a consolidação, geralmente 4 a 6 meses.
- Fisioterapia: iniciada nas primeiras semanas, com progressão gradual.
Não fumar é essencial: o tabaco reduz muito a taxa de fusão óssea.
Riscos e complicações
Como toda cirurgia, tem riscos: infecção, sangramento, lesão de nervo, pseudoartrose (quando o osso não funde), soltura de parafusos e, no longo prazo, sobrecarga dos níveis vizinhos (doença do segmento adjacente). Técnicas minimamente invasivas, navegação e robótica reduzem a agressão aos tecidos e aumentam a precisão da colocação dos parafusos.
Perguntas para o cirurgião
- Por que a artrodese e não uma descompressão isolada?
- Há instabilidade documentada no meu exame?
- Quantos níveis serão fundidos?
- Qual a taxa de fusão esperada no meu caso?
- Como será a reabilitação?
Quando procurar o especialista
Se você recebeu indicação de artrodese, uma segunda opinião é prudente e bem-vinda. Se tem dor lombar com sensação de "falseio", dor que piora ao ficar em pé e alivia deitado, ou diagnóstico de espondilolistese, agende uma avaliação para definir se há instabilidade e qual o tratamento adequado.
Perguntas frequentes
Vou ficar "duro" depois da artrodese? A perda de mobilidade é pequena quando um ou dois níveis são fundidos; os segmentos vizinhos compensam.
Os parafusos são retirados? Normalmente não. Ficam de forma permanente sem causar problemas.
Posso fazer ressonância com parafusos? Sim. Os implantes de titânio são compatíveis com ressonância.
Este conteúdo é educativo e não substitui a consulta médica.
Referências
- Försth P, Ólafsson G, Carlsson T, et al. A randomized, controlled trial of fusion surgery for lumbar spinal stenosis. N Engl J Med. 2016;374(15):1413-1423. PMID: 27074066. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/27074066/
- Ghogawala Z, Dziura J, Butler WE, et al. Laminectomy plus fusion versus laminectomy alone for lumbar spondylolisthesis. N Engl J Med. 2016;374(15):1424-1434. PMID: 27074067. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/27074067/
- Lurie J, Tomkins-Lane C. Management of lumbar spinal stenosis. BMJ. 2016;352:h6234. PMID: 26727925. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/26727925/

