Cerca de um terço das pessoas com epilepsia continua tendo crises apesar de dois ou mais medicamentos bem utilizados. Para muitas delas, a cirurgia oferece uma chance real de controle — e, em algumas formas de epilepsia, de ficar livre de crises. Ainda assim, o encaminhamento para avaliação cirúrgica costuma demorar anos. Este texto explica quem se beneficia e como é o processo.

O que é epilepsia refratária

Quando as crises persistem após o uso adequado de dois medicamentos antiepilépticos apropriados, isolados ou em combinação. A partir desse ponto, a chance de um terceiro medicamento controlar as crises é pequena (menos de 10%), e as diretrizes recomendam encaminhar a um centro de epilepsia para avaliação cirúrgica.

Quem se beneficia mais

  • Epilepsia do lobo temporal com esclerose hipocampal: a forma mais frequente e a que melhor responde — 60% a 80% dos operados ficam livres de crises incapacitantes.
  • Epilepsias causadas por lesões bem definidas: displasias corticais, tumores de baixo grau, cavernomas, cicatrizes.
  • Crianças com síndromes epilépticas graves e lesões extensas em um hemisfério.

A avaliação pré-cirúrgica

O objetivo é localizar com precisão a "zona epileptogênica" e verificar se ela pode ser removida com segurança: - Vídeo-EEG prolongado, registrando crises. - Ressonância de alta resolução com protocolo para epilepsia. - PET, SPECT e outros exames funcionais em casos selecionados. - Avaliação neuropsicológica de memória e linguagem. - Em alguns casos, eletrodos intracranianos (estereo-EEG) implantados para registro direto. O processo é conduzido por equipe multidisciplinar (neurologistas, neurocirurgiões, neuropsicólogos, neurorradiologistas).

Tipos de cirurgia

Ressecção. Remoção da área que origina as crises: lobectomia temporal, lesionectomia, ressecções extratemporais. É a única com potencial curativo.

Ablação a laser (LITT). Destruição da lesão por calor, por uma fibra fina guiada por ressonância, com abertura mínima; alternativa em esclerose hipocampal e lesões pequenas.

Desconexões. Calosotomia (secção do corpo caloso) para crises de queda; hemisferotomia em crianças com lesões extensas de um hemisfério.

Neuromodulação. Quando a ressecção não é possível: estimulação do nervo vago (VNS), estimulação cerebral profunda (DBS) do tálamo, e estimulação responsiva. Reduzem a frequência das crises, raramente as eliminam.

Resultados e riscos

Na epilepsia temporal, ensaio randomizado mostrou superioridade clara da cirurgia sobre a continuação de medicamentos. Riscos incluem déficits de memória ou linguagem (avaliados e minimizados no planejamento), alterações de campo visual, infecção, sangramento. A maioria continua com medicação por um a dois anos após a cirurgia, com redução progressiva quando possível.

Quando procurar o especialista

Se você ou um familiar tem crises apesar de dois medicamentos, peça encaminhamento a um centro de epilepsia — quanto mais cedo, melhores os resultados cognitivos e sociais. A avaliação não obriga a operar: ela informa se a cirurgia é uma opção e com que chance.

Perguntas frequentes

Vou parar de tomar remédio depois da cirurgia? Muitos reduzem ou suspendem após anos sem crises, sob orientação.

A cirurgia afeta a memória? Na lobectomia temporal pode haver perda de memória verbal, avaliada antes. Em muitos casos, o controle das crises melhora a cognição global.

Crianças podem operar? Sim, e frequentemente com melhores resultados, pela plasticidade cerebral.


Este conteúdo é educativo e não substitui a consulta médica. Cada caso deve ser avaliado individualmente.

Referências

  1. Wiebe S, Blume WT, Girvin JP, Eliasziw M. A randomized, controlled trial of surgery for temporal-lobe epilepsy. N Engl J Med. 2001;345(5):311-318. PMID: 11484687. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/11484687/
  2. Kwan P, Arzimanoglou A, Berg AT, et al. Definition of drug resistant epilepsy: consensus proposal by the ILAE. Epilepsia. 2010;51(6):1069-1077. PMID: 19889013. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/19889013/
  3. Engel J Jr, McDermott MP, Wiebe S, et al. Early surgical therapy for drug-resistant temporal lobe epilepsy: a randomized trial. JAMA. 2012;307(9):922-930. PMID: 22396514. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/22396514/