Você deita, o médico levanta sua perna esticada e pergunta onde dói. Esse gesto simples — o teste de Lasègue, ou elevação da perna estendida — é uma das ferramentas mais usadas para avaliar a dor ciática e decidir se há compressão de raiz nervosa. Entender o que ele mede ajuda a compreender por que o exame físico continua sendo o centro da avaliação da coluna, mesmo na era da ressonância.
O que o teste faz
Ao elevar a perna esticada, as raízes L5 e S1 são estiradas e deslizam alguns milímetros dentro do canal. Se uma delas está comprimida ou inflamada por uma hérnia, o estiramento reproduz a dor irradiada pela perna — geralmente entre 30 e 70 graus de elevação. Dor apenas na lombar ou sensação de alongamento atrás da coxa não caracterizam o teste positivo; o que conta é a dor que desce pela perna no trajeto do nervo.
Variações
- Lasègue cruzado: elevar a perna sem dor reproduz a dor na outra perna — muito específico para hérnia.
- Sinal de Bragard: com a perna elevada até o limiar da dor, a flexão do pé para cima aumenta a dor — reforça a origem radicular.
- Slump test: sentado, com flexão do tronco e do pescoço e extensão do joelho; estira mais o sistema nervoso.
- Teste de estiramento femoral: de bruços, flexão do joelho; avalia raízes L2 a L4.
O que os estudos mostram
O Lasègue tem alta sensibilidade (é positivo na maioria das hérnias com compressão de raiz) e especificidade moderada (pode ser positivo em outras condições). O Lasègue cruzado é o oposto: menos sensível, mas altamente específico. Combinados com o exame de força, reflexos e sensibilidade, definem a probabilidade de radiculopatia e orientam se e quando pedir a ressonância.
Por que importa mais que a imagem
Uma ressonância mostra hérnias em cerca de 30% dos adultos sem dor. O que dá significado ao achado é a correlação com o exame físico: hérnia em L4-L5 + Lasègue positivo + alteração de sensibilidade no dorso do pé + fraqueza para levantar a ponta do pé = compressão da raiz L5 com relevância clínica. A mesma hérnia sem esses sinais pode ser um achado incidental.
O que o teste não avalia
Dor facetária, sacroilíaca, discogênica sem compressão, estenose (cujo sintoma aparece ao caminhar, não ao elevar a perna) e síndrome do piriforme (que tem testes próprios). Lasègue negativo não exclui problema de coluna — exclui, com boa margem, compressão radicular significativa.
Quando procurar o especialista
Se você tem dor que desce pela perna, o exame físico — incluindo o Lasègue — é o primeiro passo, antes de qualquer imagem. Agende avaliação se a dor irradiada dura mais de duas semanas ou vem com formigamento ou fraqueza.
Perguntas frequentes
Posso fazer o teste em casa? Pode elevar a perna e observar se a dor desce; mas a interpretação (ângulo, tipo de dor, comparação) é do exame profissional.
Lasègue positivo significa cirurgia? Não. Significa compressão de raiz, que na maioria dos casos é tratada sem cirurgia.
O teste dói muito? Reproduz a dor brevemente; o médico interrompe ao identificá-la.
Este conteúdo é educativo e não substitui a consulta médica. Cada caso deve ser avaliado individualmente.
Referências
- van der Windt DA, Simons E, Riphagen II, et al. Physical examination for lumbar radiculopathy due to disc herniation in patients with low-back pain. Cochrane Database Syst Rev. 2010;(2):CD007431. PMID: 20166095. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/20166095/
- Kreiner DS, et al. An evidence-based clinical guideline for the diagnosis and treatment of lumbar disc herniation with radiculopathy. Spine J. 2014;14(1):180-191. PMID: 24239490. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/24239490/
- Brinjikji W, et al. Systematic literature review of imaging features of spinal degeneration in asymptomatic populations. AJNR. 2015;36(4):811-816. PMID: 25430861. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/25430861/

