São os "remédios para o nervo" mais prescritos para ciática, hérnia e dor crônica de coluna — e também os que mais geram dúvidas: viciam? Precisa tomar para sempre? Por que dão sono? Este texto explica o que são, quando ajudam de fato, o que a ciência mostra e como usar com segurança.

O que são

Pregabalina e gabapentina pertencem à classe dos gabapentinoides. Foram desenvolvidas como anticonvulsivantes e passaram a ser usadas para dor neuropática — a dor que vem de lesão ou disfunção do próprio nervo. Atuam em canais de cálcio dos neurônios, reduzindo a liberação de substâncias que amplificam o sinal de dor. Não são anti-inflamatórios, analgésicos comuns nem opioides.

Para que tipo de dor

Funcionam melhor na dor com características neuropáticas: queimação, choque, agulhadas, formigamento doloroso, hipersensibilidade ao toque. Na coluna, isso corresponde à dor irradiada por compressão de raiz (ciática, dor no braço por hérnia cervical), à dor persistente após cirurgia com componente neuropático e à dor da estenose com sintomas nas pernas.

Não têm indicação na dor lombar mecânica comum (muscular, facetária, discogênica) sem componente neuropático.

O que a evidência mostra

Aqui é preciso ser honesto: para a ciática aguda por hérnia de disco, o principal ensaio randomizado (publicado no NEJM em 2017, com 209 pacientes) não encontrou diferença entre pregabalina e placebo na intensidade da dor após 8 semanas — e o grupo pregabalina teve mais efeitos adversos. Revisões posteriores confirmaram evidência fraca para radiculopatia. Para dor neuropática crônica de outras causas (neuropatia diabética, pós-herpética), a evidência é boa. Na prática, em dor radicular alguns pacientes respondem bem e outros não; um teste de algumas semanas, com avaliação objetiva da resposta, é razoável — e a suspensão, se não houver benefício claro, também.

Como se usa

  • Início com dose baixa, aumentada gradualmente a cada poucos dias até a dose eficaz, para reduzir sonolência e tontura.
  • Efeito pleno pode levar 2 a 4 semanas.
  • Duração: enquanto houver dor neuropática ativa; na radiculopatia, geralmente semanas a poucos meses, com retirada gradual quando a dor melhora.
  • Retirada deve ser gradual: interrupção abrupta pode causar insônia, ansiedade, náuseas e, raramente, convulsões em quem usa doses altas.
  • A gabapentina precisa de várias tomadas ao dia; a pregabalina, de duas.

Efeitos adversos

Sonolência, tontura e sensação de "lentidão" (os mais comuns, sobretudo no início), ganho de peso, inchaço nas pernas, boca seca, visão turva, dificuldade de concentração. Em idosos, aumentam o risco de quedas. Devem ser evitados com álcool e usados com cautela junto a opioides e outros sedativos, pelo risco de depressão respiratória. A dose precisa ser ajustada em doença renal.

Viciam?

Não causam dependência no sentido dos opioides, mas há relatos de uso indevido, especialmente em pessoas com histórico de abuso de substâncias, e a retirada abrupta produz sintomas. Por isso, a pregabalina é controlada em vários países, incluindo o Brasil (receita especial).

Alternativas

Duloxetina e amitriptilina (antidepressivos com ação analgésica) são opções na dor neuropática e na dor crônica; em alguns casos, são preferidas. Bloqueios radiculares tratam a inflamação da raiz diretamente e podem reduzir a necessidade de medicação.

Quando procurar o especialista

Se você usa gabapentinoides há mais de dois meses sem melhora clara, se os efeitos adversos limitam a rotina, ou se a dor irradiada persiste apesar do tratamento, agende avaliação. Dor neuropática persistente merece diagnóstico da causa e um plano que inclua fisioterapia e, quando indicado, procedimentos.

Perguntas frequentes

Posso parar de tomar quando a dor melhorar? Sim, mas com redução gradual orientada pelo médico.

Pregabalina serve para dor nas costas comum? Não. Só para dor com componente neuropático.

Posso dirigir? No início do tratamento e após aumentos de dose, evite. Avalie a sonolência antes de retomar.


Este conteúdo é educativo e não substitui a consulta médica. Cada caso deve ser avaliado individualmente.

Referências

  1. Mathieson S, Maher CG, McLachlan AJ, et al. Trial of pregabalin for acute and chronic sciatica. N Engl J Med. 2017;376(12):1111-1120. PMID: 28328324. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/28328324/
  2. Finnerup NB, Attal N, Haroutounian S, et al. Pharmacotherapy for neuropathic pain in adults: a systematic review and meta-analysis. Lancet Neurol. 2015;14(2):162-173. PMID: 25575710. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/25575710/
  3. Enke O, New HA, New CH, et al. Anticonvulsants in the treatment of low back pain and lumbar radicular pain: a systematic review and meta-analysis. CMAJ. 2018;190(26):E786-E793. PMID: 29970367. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/29970367/