Analgésico, anti-inflamatório, relaxante muscular, corticoide, "remédio para nervo"... A prateleira de opções para dor lombar é grande, e o uso por conta própria é comum — e problemático. Cada classe tem indicação, tempo de uso e riscos próprios. Este guia explica o papel de cada uma, com base nas diretrizes atuais, para que você use com mais critério e converse melhor com o médico. Nenhuma informação aqui substitui a prescrição.
O princípio geral
Medicamento é coadjuvante: controla a dor para que você se mantenha ativo e faça a reabilitação. As diretrizes atuais recomendam começar por tratamentos não farmacológicos (calor, movimento, exercício) e usar medicação pelo menor tempo e na menor dose eficazes.
Analgésicos simples
Paracetamol e dipirona. Opções de primeira linha para dor leve a moderada. Ensaios de alta qualidade mostraram que o paracetamol isolado tem pouco efeito na dor lombar aguda, mas é seguro e útil em combinação. Dipirona é amplamente usada no Brasil, com bom perfil analgésico. Atenção às doses máximas e ao uso em doença hepática.
Anti-inflamatórios não esteroides (AINEs)
Ibuprofeno, naproxeno, diclofenaco, cetoprofeno, nimesulida, celecoxibe, etoricoxibe. Têm efeito modesto, mas consistente, na dor lombar aguda e crônica. Devem ser usados por curto período (em geral até 7 a 10 dias), pelos riscos: gastrite e úlcera, elevação da pressão, retenção de líquido, dano renal (especialmente em idosos, desidratados e hipertensos), risco cardiovascular com uso prolongado. Pessoas com doença renal, cardíaca, gástrica ou em uso de anticoagulantes precisam de avaliação antes.
Relaxantes musculares
Ciclobenzaprina, tizanidina, carisoprodol (em associações), baclofeno. Úteis em espasmo muscular agudo ("coluna travada"), por poucos dias. Causam sonolência e tontura; não dirigir. Não têm indicação em dor crônica sem espasmo.
Corticoides
Prednisona, dexametasona. Usados em ciclos curtos na dor irradiada por hérnia (radiculopatia), com o objetivo de reduzir a inflamação da raiz. Ensaio randomizado mostrou melhora modesta da função e pouca diferença na dor. Não têm indicação na dor lombar sem compressão de raiz. Efeitos: aumento da glicose, insônia, retenção de líquido; uso repetido traz riscos maiores.
Medicamentos para dor neuropática
Pregabalina, gabapentina, duloxetina, amitriptilina. Indicados quando a dor tem características de nervo (queimação, choque, formigamento) e na dor crônica. A evidência para pregabalina na ciática aguda é decepcionante — um ensaio no NEJM não mostrou benefício sobre placebo em 8 semanas —, mas há pacientes que respondem. Duloxetina tem evidência na dor lombar crônica. Efeitos: sonolência, tontura, ganho de peso, boca seca. Exigem ajuste gradual e não devem ser interrompidos abruptamente.
Opioides
Tramadol, codeína e opioides fortes. Reservados a dor intensa por curtíssimo período, quando outras opções falharam. As diretrizes desencorajam o uso em dor lombar crônica pelo risco de dependência, tolerância e efeitos adversos, com benefício pequeno.
Tópicos e outros
Cremes com anti-inflamatório têm efeito local modesto e menos risco sistêmico. Adesivos de lidocaína podem ajudar em dor localizada. Vitaminas do complexo B não têm evidência consistente para dor lombar.
Combinações e cuidados
- Não combine dois AINEs.
- Evite AINE + corticoide sem orientação (risco gástrico).
- Informe todos os medicamentos em uso, incluindo anticoagulantes, anti-hipertensivos e antidepressivos.
- Álcool potencializa a sonolência de relaxantes, gabapentinoides e opioides.
Quando procurar o especialista
Se você precisa de medicação por mais de duas semanas, se a dor irradia para a perna com formigamento ou fraqueza, ou se os remédios não estão controlando a dor, agende avaliação. Dor que exige medicação contínua precisa de diagnóstico e de um plano que vá além dela.
Perguntas frequentes
Posso tomar anti-inflamatório todo dia? Não por longos períodos. Uso contínuo exige acompanhamento médico e avaliação de riscos.
Injeção de anti-inflamatório é mais forte? Tem o mesmo efeito da via oral, com mais riscos locais. Raramente é necessária.
Relaxante muscular "solta" a hérnia? Não. Apenas reduz o espasmo muscular associado.
Este conteúdo é educativo e não substitui a consulta médica. Cada caso deve ser avaliado individualmente.
Referências
- Qaseem A, Wilt TJ, McLean RM, Forciea MA. Noninvasive treatments for acute, subacute, and chronic low back pain: a clinical practice guideline from the American College of Physicians. Ann Intern Med. 2017;166(7):514-530. PMID: 28192789. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/28192789/
- Mathieson S, Maher CG, McLachlan AJ, et al. Trial of pregabalin for acute and chronic sciatica. N Engl J Med. 2017;376(12):1111-1120. PMID: 28328324. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/28328324/
- Goldberg H, Firtch W, Tyburski M, et al. Oral steroids for acute radiculopathy due to a herniated lumbar disk: a randomized clinical trial. JAMA. 2015;313(19):1915-1923. PMID: 25988461. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/25988461/
- Williams CM, Maher CG, Latimer J, et al. Efficacy of paracetamol for acute low-back pain: a double-blind, randomised controlled trial. Lancet. 2014;384(9954):1586-1596. PMID: 25064594. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/25064594/

