Injetar ozônio na coluna para tratar hérnia de disco é uma prática difundida no Brasil e em alguns países da Europa e da Ásia — e quase ausente em outros, como os Estados Unidos. Essa distribuição desigual já diz algo: a evidência existe, mas é heterogênea, e as indicações precisam ser bem definidas. Este texto apresenta o que se sabe, sem promessas nem descarte.

O que é

O ozônio (O₃) é uma forma reativa do oxigênio. Na coluna, uma mistura de oxigênio e ozônio em concentração controlada é injetada: - No interior do disco (intradiscal): o objetivo é "desidratar" o núcleo herniado, reduzindo seu volume e a pressão sobre a raiz. - Ao redor da raiz nervosa ou nos músculos paravertebrais (paravertebral, foraminal): o objetivo é efeito anti-inflamatório e analgésico local.

É feito por agulha, guiado por radioscopia ou tomografia, em geral com anestesia local, em regime ambulatorial. Frequentemente associado a corticoide e anestésico.

Para quem se propõe

Hérnias de disco lombares (protrusões e extrusões pequenas a moderadas) com dor irradiada que não melhorou com tratamento conservador, em pacientes que preferem evitar ou adiar cirurgia. Também é usado em dor discogênica e facetária.

O que a evidência mostra

  • Metanálises de estudos observacionais e de alguns ensaios randomizados sugerem alívio da dor em uma parcela relevante dos pacientes (taxas de sucesso reportadas entre 60% e 80%) com baixo índice de complicações.
  • A qualidade desses estudos é limitada: muitos sem grupo controle adequado, com seguimento curto e critérios de resultado variáveis.
  • Comparações diretas com microdiscectomia sugerem resultados inferiores para a ozonioterapia, mas com menor invasividade.
  • Diretrizes de grandes sociedades de coluna não a recomendam como tratamento padrão por insuficiência de evidência de alta qualidade; algumas sociedades de intervenção em dor a consideram opção em casos selecionados.

Tradução: pode funcionar para pacientes bem selecionados, com hérnias contidas e dor radicular; não substitui a cirurgia quando esta é indicada; e o paciente deve saber que a evidência é moderada.

Riscos

Baixos quando feita com técnica e imagem: dor local transitória, cefaleia, raros casos de infecção (discite), reações vasovagais. Complicações graves (embolia gasosa, lesão neurológica) são excepcionais, mas relatadas, o que reforça a necessidade de profissional treinado e ambiente adequado.

Contraindicações

Gravidez, hipertireoidismo descompensado, deficiência de G6PD (favismo), infecção ativa, distúrbios de coagulação, hérnias sequestradas com déficit neurológico (indicação cirúrgica), síndrome da cauda equina.

Perguntas para fazer antes

  • Minha hérnia é do tipo em que a ozonioterapia tem melhor resultado?
  • Já esgotei o tratamento conservador?
  • Qual a taxa de sucesso do serviço e o que acontece se não funcionar?
  • O procedimento será guiado por imagem?
  • Qual o custo e há cobertura?

Quando procurar o especialista

Se você recebeu proposta de ozonioterapia, uma avaliação com cirurgião de coluna define se o seu tipo de hérnia é adequado, se há alternativa com melhor evidência para o seu caso e em que ponto do tratamento você está. Se já fez e a dor persiste, o especialista reavalia — sem repetir indefinidamente um procedimento que não funcionou.

Perguntas frequentes

Ozônio "seca" a hérnia? Pode reduzir o volume do núcleo em alguns casos; o principal efeito parece ser anti-inflamatório local.

Quantas sessões? Protocolos variam de uma a algumas aplicações. Se não houver resposta após duas, repetir raramente ajuda.

Convênio cobre? A maioria não cobre por falta de reconhecimento como procedimento padrão.


Este conteúdo é educativo e não substitui a consulta médica. Cada caso deve ser avaliado individualmente.

Referências

  1. Magalhães FN, Dotta L, Sasse A, et al. Ozone therapy as a treatment for low back pain secondary to herniated disc: a systematic review and meta-analysis of randomized controlled trials. Pain Physician. 2012;15(2):E115-E129. PMID: 22430658. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/22430658/
  2. Steppan J, Meaders T, Muto M, Murphy KJ. A metaanalysis of the effectiveness and safety of ozone treatments for herniated lumbar discs. J Vasc Interv Radiol. 2010;21(4):534-548. PMID: 20188591. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/20188591/
  3. Kreiner DS, et al. An evidence-based clinical guideline for the diagnosis and treatment of lumbar disc herniation with radiculopathy. Spine J. 2014;14(1):180-191. PMID: 24239490. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/24239490/