Uma das maiores mudanças de segurança na cirurgia de coluna das últimas décadas não está nas mãos do cirurgião, mas ao lado dele: um profissional acompanhando, em tempo real, o funcionamento da medula e dos nervos do paciente enquanto a cirurgia acontece. A monitorização neurofisiológica intraoperatória (MNIO) avisa quando uma manobra está colocando uma estrutura nervosa em risco — antes que o dano se torne permanente.
Como funciona
Eletrodos são posicionados no couro cabeludo, nos membros e, às vezes, na coluna, sob anestesia. Durante a cirurgia, o neurofisiologista estimula e registra: - Potenciais evocados somatossensitivos (PESS): estímulo nos membros, registro no cérebro; avaliam as vias sensitivas da medula. - Potenciais evocados motores (PEM): estímulo no cérebro, registro nos músculos; avaliam as vias motoras — as mais importantes para prevenir paralisia. - Eletromiografia livre e estimulada: detecta irritação de raízes durante manipulação e confirma que parafusos não estão em contato com nervos (teste de estimulação do parafuso). Qualquer queda significativa nos sinais dispara um alerta; o cirurgião interrompe a manobra, revisa a posição de implantes ou afastadores, e o anestesista ajusta pressão e oxigenação. Frequentemente, o sinal se recupera.
Em quais cirurgias é usada
- Correção de deformidades (escoliose, cifose) — padrão internacional.
- Cirurgias cervicais e torácicas com compressão medular (mielopatia, corpectomia, tumores).
- Tumores intramedulares e intradurais.
- Cirurgias com instrumentação em anatomia difícil ou com risco de má posição de parafusos.
- Cirurgia lateral lombar (XLIF), para proteger o plexo no psoas.
- Revisões e casos com déficit prévio. Em microdiscectomias e endoscopias lombares simples, não é rotina, pois a medula não está no campo.
O que a evidência mostra
Em cirurgias de deformidade e de medula, a MNIO reduz a taxa de déficits neurológicos permanentes de forma consistente em grandes séries; o alerta permite reversão em uma parcela relevante dos eventos. Sociedades de coluna e de neurofisiologia recomendam o uso em cirurgias com risco neurológico.
Limitações
Não elimina o risco — reduz; exige anestesia compatível (venosa total, sem relaxante muscular contínuo); pode ter falsos alertas (por anestesia, pressão, temperatura); depende da experiência da equipe; tem custo, nem sempre coberto integralmente por planos.
O que perguntar ao cirurgião
Minha cirurgia terá monitorização? Se não, por quê? Quem realizará (médico neurofisiologista ou técnico supervisionado)? A anestesia será ajustada para isso?
Quando procurar o especialista
Se você vai fazer cirurgia cervical, torácica, de deformidade ou de tumor, confirme na consulta pré-operatória que a monitorização faz parte do planejamento. Em cirurgias lombares simples, a ausência de monitorização é normal e não indica menor cuidado.
Perguntas frequentes
A monitorização dói? Não; o paciente está anestesiado. Pode haver marcas leves de eletrodos.
É obrigatória? Não por lei, mas é padrão de boa prática em cirurgias de risco neurológico.
Plano de saúde cobre? Muitos cobrem com justificativa; verifique antes.
Este conteúdo é educativo e não substitui a consulta médica. Cada caso deve ser avaliado individualmente.
Referências
- Fehlings MG, Brodke DS, Norvell DC, Dettori JR. The evidence for intraoperative neurophysiological monitoring in spine surgery: does it make a difference? Spine. 2010;35(9 Suppl):S37-S46. PMID: 20407350. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/20407350/
- Nuwer MR, Emerson RG, Galloway G, et al. Evidence-based guideline update: intraoperative spinal monitoring with somatosensory and transcranial electrical motor evoked potentials. Neurology. 2012;78(8):585-589. PMID: 22351796. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/22351796/

