Começa devagar: dificuldade para abotoar a camisa, a letra que fica feia, uma leve instabilidade ao caminhar no escuro. Muitos atribuem à idade. Mas esses sinais podem indicar mielopatia cervical — compressão da medula espinhal no pescoço —, a causa mais comum de disfunção da medula em adultos acima de 55 anos. Diferente da hérnia com dor no braço, aqui a dor pode ser pequena ou ausente, e o diagnóstico tardio custa função que não se recupera.

O que é

A medula espinhal passa pelo canal das vértebras cervicais. Com o envelhecimento, discos se achatam, osteófitos se formam, ligamentos engrossam — e o canal se estreita. Quando o estreitamento comprime a medula, as fibras que levam comandos aos braços e pernas e trazem a sensibilidade de volta ao cérebro começam a funcionar mal. É a mielopatia cervical degenerativa (ou espondilótica).

Sintomas — o padrão que deve chamar atenção

  • Mãos desajeitadas: dificuldade com botões, chaves, talheres, escrita; sensação de mãos "grossas".
  • Alteração do equilíbrio e da marcha: passos inseguros, necessidade de olhar para o chão, quedas.
  • Rigidez nas pernas, sensação de peso.
  • Formigamento nas mãos ou pés, muitas vezes nos dois lados.
  • Sinal de Lhermitte: sensação de choque descendo pela coluna ao flexionar o pescoço.
  • Alterações urinárias (urgência, dificuldade de esvaziar) em fases avançadas.
  • Dor no pescoço pode existir, mas frequentemente é discreta.

Os sintomas costumam progredir lentamente, em degraus, com períodos de estabilidade e pioras.

Diagnóstico

O exame neurológico é decisivo: reflexos exaltados, sinais específicos nas mãos e nos pés, alteração da marcha. A ressonância magnética mostra a compressão e, em casos mais graves, uma alteração de sinal dentro da própria medula. A eletroneuromiografia e outros exames ajudam a afastar doenças que imitam a mielopatia, como neuropatias ou esclerose múltipla.

Tratamento: por que aqui a cirurgia entra mais cedo

A mielopatia é uma das poucas condições degenerativas da coluna em que a cirurgia é frequentemente o tratamento de escolha. As diretrizes internacionais recomendam descompressão cirúrgica para mielopatia moderada a grave e sugerem cirurgia também para casos leves, ou acompanhamento rigoroso com cirurgia ao primeiro sinal de progressão. O motivo é claro: a compressão prolongada causa dano progressivo à medula, e o que se perde tende a não voltar. O objetivo da cirurgia é interromper a piora — a melhora dos sintomas existentes ocorre em boa parte dos pacientes, mas não em todos.

O tratamento conservador (fisioterapia, colar por curto período, evitar manipulações do pescoço) fica reservado a casos leves e estáveis, com acompanhamento próximo.

Técnicas cirúrgicas

  • Via anterior (discectomia ou corpectomia com artrodese): quando a compressão vem da frente, em um a três níveis.
  • Via posterior (laminoplastia ou laminectomia com artrodese): quando a compressão é extensa, em vários níveis.
  • A escolha depende da anatomia, do número de níveis e do alinhamento da coluna.

A recuperação inclui internação de 2 a 4 dias, uso eventual de colar e fisioterapia. Alívio da dor e melhora da destreza podem ocorrer em semanas a meses.

Quando procurar o especialista

Procure avaliação sem demora se notar desajeitamento nas mãos, alteração do equilíbrio, formigamento em ambas as mãos ou sensação de choque ao mover o pescoço — mesmo sem dor. Quanto mais cedo o diagnóstico, melhor o resultado.

Perguntas frequentes

Manipulação ou quiropraxia ajudam? Não, e podem ser perigosas na mielopatia. Evite manipulações cervicais até avaliação médica.

Se eu operar, vou voltar ao normal? A cirurgia interrompe a progressão. Melhora parcial ou total ocorre em muitos casos, especialmente quando feita cedo.

Mielopatia é o mesmo que hérnia cervical? A hérnia pode causar mielopatia se comprimir a medula, mas a maioria das hérnias comprime apenas a raiz nervosa.


Este conteúdo é educativo e não substitui a consulta médica.

Referências

  1. Fehlings MG, Tetreault LA, Riew KD, et al. A clinical practice guideline for the management of patients with degenerative cervical myelopathy. Global Spine J. 2017;7(3 Suppl):70S-83S. PMID: 29164035. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/29164035/
  2. Nouri A, Tetreault L, Singh A, et al. Degenerative cervical myelopathy: epidemiology, genetics, and pathogenesis. Spine. 2015;40(12):E675-E693. PMID: 25839387. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/25839387/
  3. Davies BM, Mowforth OD, Smith EK, Kotter MR. Degenerative cervical myelopathy. BMJ. 2018;360:k186. PMID: 29472200. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/29472200/