"Malformação de Chiari tipo I" costuma aparecer em ressonâncias de crânio ou cervical feitas por dor de cabeça, tontura ou até por acaso. O nome intimida, mas a maioria das pessoas com esse achado tem poucos ou nenhum sintoma e nunca precisará de cirurgia. O que define a conduta não é a imagem, e sim a combinação entre sintomas típicos, sinais no exame e a presença ou não de complicações na medula.
O que é
Na base do crânio existe uma abertura (forame magno) por onde a medula se conecta ao cérebro. Na malformação de Chiari tipo I, a parte inferior do cerebelo (as tonsilas cerebelares) desce através dessa abertura para o canal cervical, em geral por 5 mm ou mais. Essa descida pode apertar o tronco cerebral e a medula e dificultar a circulação do líquido cefalorraquidiano (líquor).
O tipo II é diferente: associado à espinha bífida, diagnosticado na infância, com anatomia mais complexa. Este texto trata do tipo I, o mais comum em adultos.
Frequência
Descidas discretas das tonsilas são vistas em cerca de 1% das ressonâncias. Uma parcela grande dessas pessoas nunca tem sintomas.
Sintomas típicos
- Dor de cabeça na nuca, curta e intensa, desencadeada por tosse, espirro, esforço, riso ou ao se abaixar — o sintoma mais característico.
- Dor no pescoço.
- Tontura, desequilíbrio.
- Alterações de sensibilidade ou fraqueza nos braços e mãos.
- Dificuldade para engolir, rouquidão, apneia do sono (por compressão do tronco cerebral, em casos mais graves).
- Alteração visual ou zumbido.
Dor de cabeça difusa, constante, sem relação com esforço, raramente é causada pelo Chiari e costuma ter outra origem (enxaqueca, cefaleia tensional).
Siringomielia: a complicação a observar
Quando o fluxo de líquor é obstruído, pode formar-se uma cavidade cheia de líquido dentro da medula (siringomielia). Ela causa perda de sensibilidade à dor e à temperatura nos braços e mãos (queimaduras sem perceber), fraqueza e atrofia das mãos, escoliose em jovens. A presença de siringomielia costuma pesar a favor de tratamento cirúrgico.
Diagnóstico
Ressonância magnética do crânio e da coluna cervical, que mede a descida das tonsilas e mostra a presença de siringomielia. Estudos de fluxo de líquor podem ajudar em casos duvidosos. O exame neurológico complementa.
Quando tratar
- Achado incidental, sem sintomas: acompanhamento clínico. Cirurgia não é indicada; a maioria permanece estável.
- Sintomas leves e inespecíficos: tratamento dos sintomas e observação.
- Cefaleia típica ao esforço, sinais neurológicos ou siringomielia: avaliação para cirurgia.
A cirurgia
A descompressão da fossa posterior remove uma pequena porção de osso na base do crânio (e, com frequência, o arco da primeira vértebra cervical) para dar espaço ao cerebelo e restabelecer o fluxo de líquor; a membrana que reveste o cérebro (dura-máter) pode ser ampliada com um enxerto. A internação é de poucos dias. A cefaleia ao esforço melhora na grande maioria dos casos; a siringomielia tende a reduzir ao longo de meses. Riscos incluem vazamento de líquor, infecção e, raramente, complicações neurológicas.
Quando procurar o especialista
Agende avaliação com neurocirurgião se sua ressonância mostrou Chiari e você tem dor de cabeça ao tossir ou fazer esforço, formigamento ou fraqueza nos braços, desequilíbrio, ou se o laudo descreve siringomielia. Se o achado é incidental e você não tem sintomas, a consulta serve para definir o acompanhamento e afastar dúvidas.
Perguntas frequentes
Chiari é doença progressiva? Na maioria dos adultos assintomáticos, não. Com siringomielia, pode progredir e por isso é tratada.
Posso fazer exercício com Chiari? Em geral sim. Esportes de contato e manobras com esforço intenso (manobra de Valsalva) devem ser discutidos com o médico.
Cirurgia cura o Chiari? Ela alivia a compressão e os sintomas relacionados ao fluxo de líquor; a anatomia das tonsilas pode continuar alterada na imagem, sem consequência.
Este conteúdo é educativo e não substitui a consulta médica. Cada caso deve ser avaliado individualmente.
Referências
- Langridge B, Phillips E, Choi D. Chiari malformation type 1: a systematic review of natural history and conservative management. World Neurosurg. 2017;104:213-219. PMID: 28435116. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/28435116/
- Meadows J, Kraut M, Guarnieri M, et al. Asymptomatic Chiari type I malformations identified on magnetic resonance imaging. J Neurosurg. 2000;92(6):920-926. PMID: 10839250. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/10839250/
- Ciaramitaro P, Massimi L, Bertuccio A, et al. Diagnosis and treatment of Chiari malformation and syringomyelia in adults: international consensus document. Neurol Sci. 2022;43(2):1327-1342. PMID: 34129128. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/34129128/

