A cirurgia aliviou a dor na perna, a vida voltou ao normal — e meses ou anos depois, a mesma dor reaparece. A recidiva da hérnia de disco é o receio mais frequente de quem opera, e merece uma resposta clara: acontece em uma minoria, tem fatores conhecidos e, quando ocorre, tem tratamento.

O que é recidiva

É uma nova hérnia no mesmo nível e do mesmo lado da cirurgia prévia, após um período de melhora. Diferencia-se de hérnia em outro nível (uma nova doença) e de dor persistente sem intervalo de melhora (que sugere outra causa).

Com que frequência

Os estudos apontam recidiva sintomática em cerca de 5% a 10% dos pacientes após microdiscectomia ou endoscopia, a maior parte nos primeiros dois anos. No ensaio randomizado que comparou as duas técnicas, a taxa de reoperação em um ano foi de 5% a 6% em ambas.

Por que acontece

A cirurgia remove o fragmento que comprime o nervo, não o disco inteiro — remover tudo geraria instabilidade e colapso do espaço. O anel fibroso, já enfraquecido no ponto por onde a hérnia saiu, pode deixar passar novo material. Fatores que aumentam o risco: - Tabagismo (o mais consistente). - Obesidade. - Diabetes. - Defeito grande no anel fibroso na cirurgia original. - Disco ainda com muita altura (mais material para herniar). - Retorno precoce a cargas altas ou trabalho pesado. - Idade mais jovem.

Como reconhecer

Dor irradiada na mesma perna, com o mesmo trajeto, após intervalo de melhora — semanas, meses ou anos. Pode vir com formigamento ou fraqueza. Dor lombar isolada, sem irradiação, raramente é recidiva.

Como se investiga

Ressonância magnética com contraste, que diferencia hérnia nova (não capta contraste) de cicatriz pós-operatória (fibrose, que capta). Essa distinção é essencial, porque fibrose não é tratada com nova cirurgia.

Tratamento

Como na primeira hérnia, começa-se pelo conservador — medicação, fisioterapia, bloqueio — e muitas recidivas melhoram assim. A reoperação é indicada para dor refratária ou déficit neurológico. Técnicas: nova microdiscectomia ou endoscopia (a mais comum); em casos de terceira recidiva ou instabilidade associada, pode-se indicar artrodese. Os resultados da reoperação são bons, embora um pouco inferiores aos da primeira cirurgia.

Como reduzir o risco

  1. Não fumar — é a medida mais eficaz.
  2. Controlar peso e glicemia.
  3. Respeitar a progressão de cargas nos primeiros 3 meses.
  4. Fortalecer o core de forma contínua, não só na reabilitação.
  5. Ergonomia no trabalho: evitar flexão com carga e vibração prolongada.
  6. Em defeitos anulares grandes, o cirurgião pode considerar dispositivos de fechamento do anel, com evidência de redução de recidiva em pacientes selecionados.

Quando procurar o especialista

Se, após cirurgia de hérnia, a dor na perna voltou com o mesmo padrão, agende avaliação: uma ressonância com contraste define se é recidiva, fibrose ou outra causa, e orienta o tratamento — que, muitas vezes, não é nova cirurgia.

Perguntas frequentes

Endoscopia tem mais recidiva que microdiscectomia? Os estudos randomizados mostram taxas semelhantes.

Se eu tiver recidiva, vou precisar de parafusos? Não necessariamente. A maioria das reoperações é nova discectomia simples.

Posso voltar a fazer musculação? Sim, com progressão orientada e técnica. Musculatura forte protege contra recidiva.


Este conteúdo é educativo e não substitui a consulta médica. Cada caso deve ser avaliado individualmente.

Referências

  1. Gadjradj PS, et al. Full endoscopic versus open discectomy for sciatica: randomised controlled non-inferiority trial. BMJ. 2022;376:e065846. PMID: 35190388. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/35190388/
  2. Swartz KR, Trost GR. Recurrent lumbar disc herniation. Neurosurg Focus. 2003;15(3):E10. PMID: 15347228. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/15347228/
  3. Thomé C, Klassen PD, Bouma GJ, et al. Annular closure in lumbar microdiscectomy for prevention of reherniation: a randomized clinical trial. Spine J. 2018;18(12):2278-2287. PMID: 29730458. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/29730458/