A cirurgia foi bem, a hérnia foi retirada — mas a dor não passou como esperado, ou voltou, e a ressonância de controle descreve "fibrose epidural" ao redor da raiz. O termo gera confusão: é complicação? Volta a ser hérnia? Precisa operar de novo? Na maioria das vezes, a resposta para as três perguntas é não. Este texto explica o que é a fibrose, por que ela existe em todo pós-operatório e quando ela realmente causa problema.
O que é a fibrose epidural
É o tecido cicatricial que se forma no espaço ao redor dos nervos após qualquer cirurgia de coluna. Toda ferida cicatriza com fibrose; a coluna não é exceção. A ressonância mostra essa cicatriz em praticamente todos os pacientes operados, com ou sem sintomas. Portanto, fibrose no laudo não significa doença.
Quando a fibrose causa sintomas
Em uma minoria dos pacientes, a cicatriz pode envolver e "aprisionar" a raiz nervosa, limitando seu deslizamento normal e causando dor irradiada, formigamento ou sensação de repuxamento, que pioram ao sentar ou ao esticar a perna. Estudos mostram que pacientes com fibrose extensa têm maior probabilidade de dor radicular recorrente — mas a correlação entre a quantidade de fibrose na imagem e os sintomas é fraca.
Fibrose ou recidiva?
A distinção é essencial e é feita pela ressonância com contraste: a fibrose é tecido vascularizado e capta contraste; a hérnia recidivada não capta. Os sintomas também ajudam: recidiva costuma ter intervalo claro de melhora seguido de dor intensa e súbita; fibrose sintomática tende a ser gradual e insidiosa.
Por que reoperar geralmente não ajuda
Remover cirurgicamente a fibrose produz... mais fibrose. Os resultados de reoperação por fibrose isolada são pobres, e a maioria dos especialistas a evita. A cirurgia só é considerada quando há outra causa associada (recidiva, estenose residual, instabilidade).
Tratamento
Fisioterapia com técnicas de mobilização neural, que buscam restaurar o deslizamento do nervo dentro da cicatriz, e fortalecimento progressivo. Medicação para dor neuropática (gabapentinoides, antidepressivos com ação analgésica), conforme prescrição. Bloqueios e infiltrações epidurais, que podem reduzir a inflamação ao redor da raiz. Adesiólise percutânea — introdução de um cateter no espaço epidural para injetar medicamentos e liberar mecanicamente aderências — em casos selecionados, com evidência moderada. Estimulação medular para dor crônica refratária, quando outras medidas falharam. Abordagem multidisciplinar da dor crônica, incluindo aspectos de sono, humor e atividade.
Como reduzir a formação de fibrose
Técnicas minimamente invasivas (endoscopia, microcirurgia com pouca dissecção) produzem menos cicatriz. Mobilização precoce após a cirurgia e fisioterapia com exercícios de deslizamento neural nas primeiras semanas ajudam a manter o nervo móvel enquanto a cicatriz se forma.
Quando procurar o especialista
Se após a cirurgia a dor irradiada persiste ou retornou, agende avaliação. A ressonância com contraste e o exame físico definem se há fibrose sintomática, recidiva ou outra causa — cada uma com tratamento próprio. Uma segunda opinião é apropriada antes de qualquer reoperação.
Perguntas frequentes
Fibrose aparece em toda ressonância pós-operatória? Sim, em algum grau. É o processo normal de cicatrização.
A fibrose cresce com o tempo? Ela amadurece e se estabiliza nos primeiros meses; não cresce indefinidamente.
Existe remédio que dissolve fibrose? Não. O tratamento é dos sintomas, com foco em mobilidade do nervo e controle da dor.
Este conteúdo é educativo e não substitui a consulta médica. Cada caso deve ser avaliado individualmente.
Referências
- Ross JS, Robertson JT, Frederickson RC, et al. Association between peridural scar and recurrent radicular pain after lumbar discectomy: magnetic resonance evaluation. Neurosurgery. 1996;38(4):855-861. PMID: 8692415. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/8692415/
- Manchikanti L, Knezevic NN, Navani A, et al. Epidural interventions in the management of chronic spinal pain: ASIPP comprehensive evidence-based guidelines. Pain Physician. 2021;24(S1):S27-S208. PMID: 33492918. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/33492918/
- Gadjradj PS, et al. Full endoscopic versus open discectomy for sciatica: randomised controlled non-inferiority trial. BMJ. 2022;376:e065846. PMID: 35190388. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/35190388/

