A artrodese depende de um evento biológico: o osso precisa crescer entre as vértebras e fundi-las. Os parafusos são apenas o andaime. Quando, após 6 a 12 meses, essa fusão não acontece, o resultado é a pseudoartrose — uma "falsa articulação" que pode permanecer silenciosa ou causar dor e falha dos implantes. Entender por que ocorre ajuda a preveni-la antes e a reconhecê-la depois.
Como a fusão acontece
O cirurgião coloca enxerto ósseo (do próprio paciente, de banco de ossos ou substitutos sintéticos, às vezes com proteínas indutoras de osso) entre as vértebras, em geral dentro de um espaçador (cage). A instrumentação imobiliza o segmento. Ao longo dos meses, células ósseas invadem o enxerto e formam uma ponte de osso sólido. Quando a ponte se completa, os implantes deixam de suportar carga.
O que é a pseudoartrose
Ausência de fusão óssea sólida um ano após a cirurgia. O segmento continua com micromovimento, que pode gerar dor, soltura dos parafusos, quebra de hastes e perda da correção.
Frequência
Varia de 5% a 15% nas artrodeses lombares de um nível, sendo maior em fusões de vários níveis, em fumantes e em algumas técnicas. Uma parte dos pacientes com pseudoartrose não tem sintomas e não precisa de tratamento.
Fatores de risco
- Tabagismo — o principal fator modificável; a nicotina reduz a formação de osso e o fluxo sanguíneo.
- Diabetes mal controlado.
- Osteoporose.
- Obesidade.
- Uso prolongado de corticoides e de anti-inflamatórios em altas doses no pós-operatório.
- Fusão de múltiplos níveis.
- Deficiência de vitamina D.
- Infecção.
- Técnica e quantidade/qualidade do enxerto.
Sintomas
- Dor lombar ou cervical que persiste ou retorna meses após a cirurgia, sobretudo ao levantar peso ou ficar em pé.
- Sensação de instabilidade.
- Dor irradiada se houver perda de correção com compressão de nervos.
- Em alguns casos, dor súbita quando um implante quebra.
Diagnóstico
- Tomografia de cortes finos com reconstruções: o exame mais preciso para ver se há ponte óssea.
- Radiografias dinâmicas (flexão e extensão): mostram movimento no segmento.
- Sinais indiretos: halo ao redor dos parafusos, quebra de implantes.
- A ressonância tem papel limitado para avaliar a fusão.
Tratamento
Pseudoartrose assintomática: observação, com acompanhamento por imagem.
Sintomática: tratamento conservador inicial (fisioterapia, controle da dor, cessação do tabagismo, correção de vitamina D). Estimulação óssea externa tem evidência limitada. Quando a dor é incapacitante ou há falha de implante, indica-se revisão cirúrgica: remoção do tecido fibroso, novo enxerto (frequentemente com adição de proteína óssea), nova instrumentação e, muitas vezes, fusão por outra via (anterior ou lateral, além da posterior) para aumentar a superfície de contato. As taxas de fusão na revisão são boas, mas inferiores às da cirurgia primária.
Como prevenir
- Parar de fumar pelo menos 4 semanas antes e até a consolidação.
- Controlar glicemia e peso.
- Tratar osteoporose e corrigir vitamina D antes da cirurgia.
- Evitar anti-inflamatórios em altas doses por longos períodos no pós-operatório, conforme orientação.
- Seguir a progressão de atividades: nem imobilidade, nem sobrecarga precoce.
- Escolher a técnica de fusão adequada ao caso, com enxerto suficiente.
Quando procurar o especialista
Se você fez artrodese e a dor persiste ou retornou após meses, se sente instabilidade, ou se radiografias mostraram alteração nos implantes, agende avaliação com tomografia. Se você vai operar e fuma, converse antes: a cessação é o fator que mais muda o resultado.
Perguntas frequentes
Parafuso solto precisa ser retirado? Depende. Se há fusão e o parafuso apenas incomoda, pode ser retirado; se não há fusão, a revisão é mais ampla.
Quanto tempo leva para fundir? Em geral 6 a 12 meses; fumantes e fusões longas podem demorar mais.
Posso fazer algo para "acelerar" a fusão? Não fumar, nutrição adequada, vitamina D e atividade progressiva são as medidas com respaldo.
Este conteúdo é educativo e não substitui a consulta médica. Cada caso deve ser avaliado individualmente.
Referências
- Chun DS, Baker KC, Hsu WK. Lumbar pseudarthrosis: a review of current diagnosis and treatment. Neurosurg Focus. 2015;39(4):E10. PMID: 26424334. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/26424334/
- Försth P, et al. A randomized, controlled trial of fusion surgery for lumbar spinal stenosis. N Engl J Med. 2016;374(15):1413-1423. PMID: 27074066. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/27074066/
- Glassman SD, Anagnost SC, Parker A, et al. The effect of cigarette smoking and smoking cessation on spinal fusion. Spine. 2000;25(20):2608-2615. PMID: 11034645. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/11034645/

