Uma dor que começa no pescoço, passa pelo ombro e desce pelo braço até os dedos, com formigamento — o padrão sugere compressão de uma raiz nervosa cervical (radiculopatia). Mas o ombro, os nervos periféricos e até o coração podem produzir dores parecidas. Diferenciar a origem é o que define o tratamento, e o trajeto e os sintomas associados são as pistas principais.
Radiculopatia cervical
Compressão de uma raiz por hérnia de disco (mais em jovens) ou por osteófitos e estenose foraminal (após os 50). Características: - Dor em faixa, do pescoço ao braço, seguindo um trajeto definido. - Formigamento ou dormência em dedos específicos: polegar e indicador (C6), dedo médio (C7), anelar e mínimo (C8). - Fraqueza em movimentos específicos (flexão do cotovelo em C6, extensão em C7, força de preensão em C8). - Piora ao inclinar ou girar a cabeça para o lado da dor; alívio, às vezes, ao colocar a mão sobre a cabeça. - Reflexos podem estar diminuídos.
O que imita a radiculopatia
- Ombro (tendinite, bursite, lesão do manguito, capsulite): dor no ombro e na face lateral do braço até o cotovelo, sem passar para a mão; piora ao elevar o braço; sem formigamento em dedos.
- Túnel do carpo: formigamento nos três primeiros dedos, pior à noite; sem dor no pescoço.
- Nervo ulnar no cotovelo: formigamento no mínimo e anelar, pior com o cotovelo dobrado.
- Síndrome do desfiladeiro torácico: dor e formigamento no braço com o braço elevado, por compressão no pescoço/clavícula.
- Dor miofascial do trapézio: dor referida para o braço, sem déficits.
- Coração: dor no braço esquerdo com dor no peito, falta de ar, suor — emergência.
- Tumor de Pancoast (ápice do pulmão): dor no ombro e braço com sinais específicos, em fumantes.
Diagnóstico
Exame físico (testes de provocação cervical, exame do ombro, força, reflexos e sensibilidade por raiz); ressonância cervical quando há suspeita de radiculopatia com déficit ou falha do tratamento; eletroneuromiografia para diferenciar raiz de nervo periférico; radiografia ou ultrassom do ombro se a suspeita é articular.
Tratamento da radiculopatia
A maioria melhora em 6 a 12 semanas com tratamento conservador: medicação, fisioterapia (mobilidade, fortalecimento dos flexores profundos, correção postural), ajuste de travesseiro e ergonomia; bloqueio radicular em dor intensa. Cirurgia (ACDF, prótese ou foraminotomia posterior) para déficit progressivo, mielopatia ou dor refratária.
Sinais de alerta
Fraqueza progressiva, desajeitamento das mãos com desequilíbrio (mielopatia), dor com sintomas cardíacos, febre, perda de peso, dor após trauma.
Quando procurar o especialista
Agende avaliação se a dor irradia para o braço há mais de duas semanas, com formigamento em dedos específicos ou fraqueza. O especialista diferencia cervical, ombro e nervo periférico — e evita tratar o lugar errado.
Perguntas frequentes
Dor no braço sem dor no pescoço pode ser cervical? Sim; algumas radiculopatias têm dor predominantemente no braço.
Travesseiro cervical resolve? Ajuda no conforto; não trata a compressão.
Posso fazer musculação? Com adaptação: evite exercícios que reproduzam a dor irradiada e cargas sobre os ombros na fase aguda.
Este conteúdo é educativo e não substitui a consulta médica. Cada caso deve ser avaliado individualmente.
Referências
- Bono CM, et al. An evidence-based clinical guideline for the diagnosis and treatment of cervical radiculopathy from degenerative disorders. Spine J. 2011;11(1):64-72. PMID: 21168100. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/21168100/
- Cohen SP, Hooten WM. Advances in the diagnosis and management of neck pain. BMJ. 2017;358:j3221. PMID: 28807894. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/28807894/
- Padua L, et al. Carpal tunnel syndrome: clinical features, diagnosis, and management. Lancet Neurol. 2016;15(12):1273-1284. PMID: 27751557. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/27751557/

