A pergunta assombra quem tem dor persistente, e os números tranquilizam: em serviços de atenção primária, menos de 1% das dores nas costas são causadas por câncer. Mas a coluna é o local mais comum de metástases ósseas, e a dor é o primeiro sintoma na maioria dos casos — por isso existem sinais que justificam investigação, sem alarme para os demais.
Quem tem risco aumentado
- Histórico de câncer (o fator mais importante), especialmente mama, próstata, pulmão, rim, tireoide e mieloma múltiplo.
- Idade acima de 50 anos com dor de início recente e características incomuns.
- Perda de peso sem explicação.
- Ausência de melhora após 4 a 6 semanas de tratamento adequado.
Características da dor que sugerem investigação
- Progressiva, ao longo de semanas, sem relação clara com esforço.
- Noturna, que acorda e não alivia ao deitar; sem posição de conforto.
- Constante, não mecânica (não muda com movimento).
- Localizada na coluna torácica (local mais comum de metástases), na linha média, com dor à percussão da vértebra.
- Acompanhada de sintomas sistêmicos: cansaço, febre baixa, perda de apetite.
- Com sinais neurológicos: fraqueza nas pernas, formigamento ascendente, alterações urinárias — sinais de compressão medular, que é emergência.
O que não sugere câncer
Dor que piora com movimento e melhora com repouso, após esforço, com contratura muscular, que muda com posição, sem sintomas sistêmicos, em pessoa jovem sem histórico — o padrão mecânico da imensa maioria.
Como se investiga
Exame físico com percussão da coluna e exame neurológico; exames de sangue (hemograma, VHS, PCR, cálcio, fosfatase alcalina, PSA em homens, eletroforese de proteínas); radiografia; ressonância com contraste de toda a coluna quando há sinais de alerta; cintilografia óssea ou PET-CT para rastrear o esqueleto e localizar o tumor primário; biópsia quando necessário.
Se for metástase
O tratamento é integrado ao do câncer de origem: radioterapia (incluindo radiocirurgia da coluna), cirurgia de descompressão e estabilização em compressão medular ou instabilidade, vertebroplastia para dor por fratura patológica, medicamentos que protegem o osso, terapia sistêmica. Muitas metástases de coluna são controláveis, com preservação da função.
Compressão medular por metástase: emergência
Fraqueza nas pernas, alteração urinária ou formigamento ascendente em paciente com câncer conhecido exigem corticoide imediato e descompressão em horas a dias — a cirurgia seguida de radioterapia mostrou superioridade sobre a radioterapia isolada para manter a capacidade de andar.
Quando procurar o especialista
Dor nas costas com histórico de câncer, dor noturna constante, perda de peso ou sinais neurológicos: avaliação em dias, com ressonância. Dor mecânica típica sem esses sinais: tratamento conservador e reavaliação em 4 a 6 semanas se persistir.
Perguntas frequentes
Dor de coluna há anos pode ser câncer? Dor estável por anos, de padrão mecânico, praticamente nunca; dor que mudou de padrão merece atenção.
Preciso de exame de sangue em toda dor nas costas? Não; apenas com sinais de alerta.
Metástase na coluna tem tratamento? Sim, com várias opções que controlam dor e preservam função.
Este conteúdo é educativo e não substitui a consulta médica. Cada caso deve ser avaliado individualmente.
Referências
- Henschke N, Maher CG, Refshauge KM, et al. Prevalence of and screening for serious spinal pathology in patients presenting to primary care settings with acute low back pain. Arthritis Rheum. 2009;60(10):3072-3080. PMID: 19790051. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/19790051/
- Patchell RA, et al. Direct decompressive surgical resection in the treatment of spinal cord compression caused by metastatic cancer: a randomised trial. Lancet. 2005;366(9486):643-648. PMID: 16112300. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/16112300/
- Hartvigsen J, et al. What low back pain is and why we need to pay attention. Lancet. 2018;391:2356-2367. PMID: 29573870. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/29573870/

