A neurocirurgia em crianças é uma subespecialidade própria: as doenças são diferentes das dos adultos, o cérebro em desenvolvimento reage de outra forma, e a família faz parte do tratamento. Conhecer as condições mais frequentes e os sinais que merecem avaliação ajuda os pais a buscar ajuda no momento certo — muitas vezes, cedo faz toda a diferença.
As condições mais frequentes
Hidrocefalia. A mais comum. Congênita, após hemorragia em prematuros, após meningite ou por tumores. Sinais no bebê: crescimento rápido da cabeça, fontanela abaulada, irritabilidade, vômitos, olhar para baixo. Tratamento com válvula (derivação) ou terceiro-ventriculostomia endoscópica.
Espinha bífida (mielomeningocele). Diagnóstico pré-natal; cirurgia fetal ou nos primeiros dias; acompanhamento vitalício por equipe multidisciplinar.
Craniossinostose. Fechamento precoce de uma ou mais suturas do crânio, deformando a cabeça (alongada, achatada de um lado, triangular). Diferente da plagiocefalia posicional (achatamento por posição, sem sutura fechada, que melhora com reposicionamento). A craniossinostose é tratada cirurgicamente no primeiro ano de vida, por técnicas endoscópicas ou remodelação.
Tumores cerebrais. Os tumores sólidos mais comuns na infância. Meduloblastoma, astrocitoma pilocítico, ependimoma, gliomas, craniofaringioma. Sinais: dor de cabeça matinal com vômitos, alteração de marcha, alteração visual, sonolência, mudança de comportamento, atraso ou regressão de desenvolvimento, aumento do perímetro cefálico. O tratamento envolve cirurgia, e conforme o tipo, quimioterapia e radioterapia, com sobrevida que melhorou muito nas últimas décadas.
Traumatismo craniano. Quedas e acidentes; a maioria leve. Sinais de alerta após trauma: vômitos repetidos, sonolência, irritabilidade persistente, convulsão, fontanela tensa, saída de líquido pelo nariz ou ouvido.
Epilepsia refratária. Crianças com crises não controladas por medicação podem se beneficiar muito da cirurgia — displasias, esclerose hipocampal, tumores, síndromes hemisféricas — e quanto mais cedo, melhor o desenvolvimento.
Malformação de Chiari e siringomielia, cistos aracnoides, medula ancorada (dor, alteração de marcha, bexiga, escoliose, sinais na pele da lombar), lesões vasculares e espasticidade (rizotomia dorsal seletiva, bomba de baclofeno) em paralisia cerebral.
Sinais que os pais devem observar
- Cabeça crescendo mais rápido que o esperado (acompanhe o perímetro cefálico nas consultas).
- Fontanela abaulada ou tensa quando a criança está calma.
- Dor de cabeça recorrente, sobretudo matinal ou com vômitos.
- Vômitos sem causa digestiva.
- Alteração da marcha, quedas frequentes, perda de habilidades adquiridas.
- Alteração visual, estrabismo novo, olhar fixo para baixo.
- Sonolência excessiva ou mudança de comportamento.
- Convulsões.
- Assimetria da cabeça que não melhora com reposicionamento.
- Marcas na pele da linha média das costas (tufo de pelos, covinha profunda, mancha, lipoma).
Como é a avaliação
Exame neurológico adaptado à idade; ultrassom transfontanelar em bebês com fontanela aberta; ressonância (com sedação em crianças pequenas); tomografia na urgência. A avaliação frequentemente envolve pediatra, neurologista infantil e neurocirurgião pediátrico.
O que é diferente na criança
Maior plasticidade cerebral (melhor recuperação e melhor resultado da cirurgia de epilepsia precoce); crescimento (implantes e derivações precisam acompanhar); necessidade de anestesia para exames; envolvimento da família em todas as decisões; acompanhamento longo, muitas vezes até a transição para a vida adulta.
Quando procurar o especialista
Diante de qualquer dos sinais acima, o pediatra é o primeiro passo e encaminha ao neurocirurgião pediátrico. Vômitos com sonolência, convulsão, fontanela tensa ou trauma com alteração de consciência são urgências.
Perguntas frequentes
Cabeça grande é sempre hidrocefalia? Não; há variação familiar (macrocefalia benigna). O ultrassom ou a ressonância diferenciam.
Cabeça achatada precisa de cirurgia? Plagiocefalia posicional, não; craniossinostose, sim.
Cirurgia cerebral em bebê é segura? Com equipe pediátrica experiente e estrutura adequada, os resultados são muito bons.
Este conteúdo é educativo e não substitui a consulta médica. Cada caso deve ser avaliado individualmente.
Referências
- Kahle KT, Kulkarni AV, Limbrick DD Jr, Warf BC. Hydrocephalus in children. Lancet. 2016;387(10020):788-799. PMID: 26256071. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/26256071/
- Adzick NS, et al. A randomized trial of prenatal versus postnatal repair of myelomeningocele. N Engl J Med. 2011;364(11):993-1004. PMID: 21306277. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/21306277/
- Wilne S, Collier J, Kennedy C, et al. Presentation of childhood CNS tumours: a systematic review and meta-analysis. Lancet Oncol. 2007;8(8):685-695. PMID: 17644483. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/17644483/

