Quando a dor não fica nas costas e começa a "caminhar" — glúteo, coxa, panturrilha, pé —, o corpo está dando uma informação importante: há um nervo envolvido. A dor irradiada tem um vocabulário próprio (radiculopatia, ciática, dor referida) e cada termo aponta para causas e tratamentos diferentes. Este texto organiza esses conceitos de forma prática.
Dois tipos de dor que descem pela perna
Dor radicular (radiculopatia). Uma raiz nervosa está comprimida ou inflamada. A dor é aguda, em faixa, pode ser descrita como choque ou queimação, chega abaixo do joelho e frequentemente vem com formigamento, dormência ou fraqueza. Piora ao sentar, tossir e espirrar. A causa mais comum é a hérnia de disco; em idosos, a estenose foraminal.
Dor referida. Estruturas da coluna (articulações facetárias, sacroilíaca, disco) doem e o cérebro "projeta" a dor para o glúteo e a coxa. É mais difusa, profunda, raramente passa do joelho, não vem com formigamento ou fraqueza. Não há nervo comprimido.
Diferenciar os dois muda tudo: a dor referida não se beneficia de cirurgia de descompressão; a radicular pode.
O que o trajeto revela
- Até o dedão e o dorso do pé: raiz L5 (hérnia L4-L5).
- Até o calcanhar, planta e borda externa do pé: raiz S1 (hérnia L5-S1).
- Frente da coxa até o joelho: raízes L3-L4.
Esses padrões, somados ao exame de força, reflexos e sensibilidade, permitem ao especialista localizar o nível antes de qualquer exame de imagem.
Causas por faixa etária
- 20 a 50 anos: hérnia de disco é a principal causa de dor radicular.
- Acima de 60: estenose foraminal e de canal, espondilolistese degenerativa.
- Qualquer idade: síndrome do piriforme (nervo comprimido no glúteo), dor sacroilíaca, dor facetária (referidas).
O que fazer nos primeiros dias
Manter-se em movimento moderado, evitar ficar sentado por longos períodos, calor local, medicação conforme orientação. Repouso absoluto atrasa a recuperação. A maioria das radiculopatias por hérnia melhora em 6 a 12 semanas.
Sinais de alerta
Fraqueza progressiva (dificuldade para levantar a ponta do pé, para ficar na ponta dos pés), dor nas duas pernas, alteração urinária ou intestinal, dormência íntima. Exigem avaliação rápida.
Tratamento
- Conservador (primeira linha): medicação, fisioterapia, orientação de atividade.
- Bloqueio radicular guiado por imagem para dor intensa que trava a reabilitação.
- Cirurgia (microdiscectomia ou endoscópica) para dor refratária após tratamento adequado, déficit progressivo ou emergências. Estudos randomizados mostram que operar cedo alivia mais rápido, mas que, após um ano, os resultados se igualam aos de quem esperou com tratamento adequado — o que dá tranquilidade para tentar o caminho conservador primeiro.
Quando procurar o especialista
Agende avaliação se a dor na perna dura mais de duas semanas, passa do joelho, vem com formigamento ou fraqueza, ou se o tratamento inicial não trouxe melhora. O exame físico define se é radicular ou referida e orienta o tratamento correto.
Perguntas frequentes
Dor na perna sem dor nas costas pode ser coluna? Sim. Em muitas hérnias, a dor na perna é dominante e a lombar incomoda pouco.
Alongar ajuda? Mobilidade suave, sim. Alongamento forçado do nervo pode irritar a raiz na fase aguda.
A dor referida precisa de exame? Geralmente não. O exame físico identifica a origem; infiltrações diagnósticas podem confirmar.
Este conteúdo é educativo e não substitui a consulta médica. Cada caso deve ser avaliado individualmente.
Referências
- Kreiner DS, et al. An evidence-based clinical guideline for the diagnosis and treatment of lumbar disc herniation with radiculopathy. Spine J. 2014;14(1):180-191. PMID: 24239490. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/24239490/
- Peul WC, et al. Surgery versus prolonged conservative treatment for sciatica. N Engl J Med. 2007;356(22):2245-2256. PMID: 17538084. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/17538084/
- Konstantinou K, Dunn KM. Sciatica: review of epidemiological studies and prevalence estimates. Spine. 2008;33(22):2464-2472. PMID: 18923325. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/18923325/

