Regenerar o disco desgastado é o sonho da medicina da coluna, e as células-tronco são a aposta mais divulgada. Clínicas oferecem injeções "regenerativas" com custo alto; a ciência, por sua vez, está em fase de ensaios clínicos, com resultados iniciais mistos e sem aprovação regulatória para uso de rotina. Saber a diferença entre o que está em pesquisa e o que é vendido protege o paciente.
A ideia
O disco tem poucas células e não se regenera porque não tem vasos. Injetar células com capacidade de se transformar em células discais e de produzir a matriz (proteoglicanos, colágeno) poderia, em teoria, reidratar e restaurar o disco. As células mais estudadas são as mesenquimais, obtidas da medula óssea ou da gordura do próprio paciente, ou de doadores.
O que a evidência mostra
- Ensaios de fase 1 e 2 com células mesenquimais intradiscais mostraram segurança e redução de dor em parte dos pacientes, com resultados heterogêneos e sem regeneração estrutural consistente na ressonância.
- Ensaios de fase 3 recentes com células alogênicas (de doadores) tiveram resultados mistos: alguns não atingiram os desfechos primários de dor e função em comparação com placebo, embora subgrupos tenham respondido.
- Não há produto de células-tronco para disco aprovado pela Anvisa, pela FDA ou pela EMA para uso clínico de rotina. No Brasil, terapias celulares fora de pesquisa aprovada não são permitidas.
- "Aspirado de medula óssea concentrado" (BMAC) e "fração vascular estromal" de gordura, oferecidos como "células-tronco", contêm poucas células-tronco reais e têm evidência ainda mais limitada.
Por que é difícil
O disco degenerado é um ambiente ácido, com pouca nutrição e pressão alta — hostil às células injetadas, que sobrevivem pouco. Além disso, a dor lombar tem muitas fontes; regenerar o disco não garante alívio.
O que é vendido hoje
Injeções de "células-tronco" de gordura ou medula óssea, muitas vezes combinadas com PRP, em clínicas privadas, com promessas de regeneração e custo elevado. Sem protocolo padronizado, sem registro de resultados, sem cobertura, e, no Brasil, frequentemente à margem da regulamentação. Sociedades médicas alertam contra essas práticas.
O que fazer se você se interessa
- Pergunte se o tratamento faz parte de um ensaio clínico registrado (ClinicalTrials.gov, Rebec) aprovado por comitê de ética — a única forma legítima de acesso no momento.
- Desconfie de garantias, de "regeneração comprovada" e de pacotes.
- Compare com tratamentos com evidência para dor discogênica: exercício, reabilitação, controle de fatores, e procedimentos com dados (radiofrequência, ablação do nervo basivertebral em casos selecionados).
Quando procurar o especialista
Se você tem dor discogênica crônica e considerou terapias regenerativas, agende avaliação: o especialista apresenta as opções com evidência, informa sobre pesquisas em andamento e protege contra propostas sem base.
Perguntas frequentes
Células-tronco curam hérnia? Não há evidência; a hérnia é tratada por outros caminhos.
Vai estar disponível em breve? A pesquisa avança, mas sem previsão de aprovação para uso amplo.
É perigoso? Injeções intradiscais têm risco baixo, mas o principal risco é gastar e adiar tratamentos eficazes.
Este conteúdo é educativo e não substitui a consulta médica. Cada caso deve ser avaliado individualmente.
Referências
- Noriega DC, Ardura F, Hernández-Ramajo R, et al. Intervertebral disc repair by allogeneic mesenchymal bone marrow cells: a randomized controlled trial. Transplantation. 2017;101(8):1945-1951. PMID: 27661661. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/27661661/
- Amirdelfan K, Bae H, McJunkin T, et al. Allogeneic mesenchymal precursor cells treatment for chronic low back pain associated with degenerative disc disease: a prospective randomized, placebo-controlled 36-month study of safety and efficacy. Spine J. 2021;21(2):212-230. PMID: 33045417. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/33045417/
- Foster NE, et al. Prevention and treatment of low back pain: evidence, challenges, and promising directions. Lancet. 2018;391:2368-2383. PMID: 29573872. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/29573872/

