Mesas de "descompressão", aparelhos de tração cervical com peso, pranchas de inversão vendidas na internet. A tração — puxar a coluna para "abrir" o espaço entre as vértebras — é uma das ideias mais intuitivas para tratar hérnia e uma das mais antigas. A intuição é boa; a evidência, nem tanto. Vale entender o que ela pode e o que não pode fazer.
O racional
Ao tracionar, o espaço entre as vértebras aumenta momentaneamente, a pressão dentro do disco cai e o forame (por onde sai a raiz) se abre. Em teoria, isso aliviaria a compressão e permitiria ao disco "retrair". Na prática, o efeito é temporário: assim que a tração cessa e a pessoa fica em pé, a carga retorna. Não há evidência de que a tração reduza a hérnia de forma duradoura.
Tipos
- Tração mecânica em mesa, com força controlada, contínua ou intermitente, por fisioterapeuta.
- Tração cervical com halter ou aparelho pneumático.
- "Descompressão espinhal" motorizada: mesas computadorizadas, comercializadas com nomes próprios — tecnicamente, tração intermitente.
- Prancha de inversão: tração pelo próprio peso corporal, de cabeça para baixo.
- Autotração e posições de "descarga" (deitar com as pernas elevadas).
O que a evidência mostra
A revisão sistemática Cochrane mais ampla sobre tração para dor lombar (com ou sem ciática) concluiu que a tração, isolada ou associada a outros tratamentos, não tem efeito relevante sobre dor, função ou retorno ao trabalho em comparação com placebo, tração simulada ou nenhum tratamento — com evidência de qualidade baixa a moderada. Para a cervical, há estudos pequenos sugerindo alívio de curto prazo na radiculopatia, sem efeito duradouro. As diretrizes atuais não recomendam a tração como tratamento da dor lombar.
As mesas de "descompressão" motorizadas não demonstraram superioridade sobre a tração convencional em estudos independentes; o marketing supera a evidência.
Onde pode ter lugar
- Como recurso de alívio temporário dentro de uma sessão de fisioterapia, em radiculopatia cervical ou lombar, para permitir exercício em seguida.
- Posições de descarga em casa, por alguns minutos, na fase aguda — sem custo e sem risco.
Riscos e contraindicações
Prancha de inversão eleva a pressão arterial e intraocular: contraindicada em hipertensão não controlada, glaucoma, doenças cardíacas, gravidez, refluxo importante. Tração está contraindicada em osteoporose, fraturas, tumores, instabilidade, artrite reumatoide cervical, mielopatia. Tração cervical mal ajustada pode piorar a dor.
O que funciona em vez disso
Exercício de fortalecimento e mobilidade, manter-se ativo, fisioterapia com foco em autonomia, bloqueios quando a dor radicular é intensa, e cirurgia nos casos com indicação. Nenhum deles é tão "passivo" quanto deitar em uma mesa — e é justamente isso que os torna eficazes.
Quando procurar o especialista
Se você está considerando pagar por um programa de "descompressão" ou comprou uma prancha de inversão, vale antes uma avaliação: o especialista confirma o diagnóstico e indica o que tem chance real de funcionar no seu caso. Se a dor irradiada persiste apesar de tração e fisioterapia, há outros caminhos com evidência.
Perguntas frequentes
A tração pode empurrar a hérnia de volta? Não. O disco não "entra de volta" com tração; a redução da hérnia é um processo biológico de reabsorção.
Prancha de inversão é segura? Para pessoas saudáveis, por poucos minutos, geralmente sim. Alívio temporário; sem efeito sobre a hérnia.
Pendurar-se na barra ajuda? É uma forma de autotração. Pode aliviar momentaneamente; não trata.
Este conteúdo é educativo e não substitui a consulta médica. Cada caso deve ser avaliado individualmente.
Referências
- Wegner I, Widyahening IS, van Tulder MW, et al. Traction for low-back pain with or without sciatica. Cochrane Database Syst Rev. 2013;(8):CD003010. PMID: 23959683. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/23959683/
- Qaseem A, et al. Noninvasive treatments for acute, subacute, and chronic low back pain: a clinical practice guideline from the American College of Physicians. Ann Intern Med. 2017;166(7):514-530. PMID: 28192789. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/28192789/
- Foster NE, et al. Prevention and treatment of low back pain: evidence, challenges, and promising directions. Lancet. 2018;391:2368-2383. PMID: 29573872. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/29573872/

