A dor não deixa trabalhar, o tratamento vai levar semanas e a conta chega todo mês. O auxílio por incapacidade temporária — que a maioria ainda chama de auxílio-doença — existe exatamente para esse momento. Mas o processo tem regras, prazos e uma etapa decisiva: a perícia. Entender como ela funciona e o que o perito avalia aumenta muito a chance de um resultado justo.

Quem tem direito

Trabalhadores que contribuem para o INSS (empregados, autônomos, MEI, contribuintes individuais) e que ficam incapazes para sua atividade por mais de 15 dias consecutivos. Em regra, exige-se carência de 12 contribuições mensais — dispensada em casos de acidente de trabalho e em algumas doenças graves listadas.

Para o empregado com carteira assinada, os primeiros 15 dias são pagos pela empresa; a partir do 16º, pelo INSS.

O que o perito avalia

O perito não julga se você tem hérnia — julga se, naquele momento, você está incapaz para a sua função. Uma hérnia com dor irradiada intensa e perda de força incapacita um pedreiro e pode incapacitar um analista de escritório; uma hérnia controlada, com dor leve, provavelmente não incapacita nenhum dos dois.

Por isso, o relatório médico precisa conectar o diagnóstico à limitação funcional concreta: "não consegue permanecer sentado por mais de 30 minutos", "déficit de força para dorsiflexão do pé direito", "dor irradiada que impede carregar peso".

Passo a passo

  1. Consulte o especialista e inicie o tratamento adequado.
  2. Solicite um relatório médico detalhado (não apenas atestado): CID, história, exame físico, exames, tratamentos, limitações e prazo estimado de afastamento.
  3. Agende a perícia pelo Meu INSS (aplicativo ou site) ou telefone 135. Em muitos casos, é possível o requerimento com análise documental (Atestmed), sem perícia presencial, para afastamentos mais curtos.
  4. Reúna documentos: identidade, comprovante de contribuições, relatório médico, exames de imagem com laudo, receitas.
  5. Compareça à perícia com tudo organizado e descreva objetivamente suas limitações.
  6. Acompanhe o resultado pelo Meu INSS. Em caso de negativa, cabe recurso em 30 dias.

Erros comuns

  • Levar apenas o laudo da ressonância, sem relatório do médico assistente.
  • Exagerar ou minimizar sintomas: o perito examina e compara com os documentos.
  • Interromper o tratamento: a perícia também avalia se você está tratando.
  • Não informar a atividade exata que exerce.

Quanto tempo dura

O benefício é concedido por prazo determinado, com base na estimativa de recuperação. Se ao final ainda houver incapacidade, é possível pedir prorrogação nos 15 dias anteriores ao término. Na hérnia de disco, afastamentos de 30 a 90 dias são comuns em fases agudas; casos cirúrgicos podem exigir mais.

Hérnia como acidente de trabalho

Quando a hérnia tem relação com a atividade (carga, vibração, esforço repetitivo), o benefício pode ser acidentário. Isso exige a Comunicação de Acidente de Trabalho (CAT) ou o reconhecimento do nexo pelo INSS, e garante estabilidade de 12 meses após o retorno e recolhimento do FGTS durante o afastamento.

O que a ciência mostra sobre retorno ao trabalho

Estudos apontam que o retorno gradual e precoce à atividade, quando possível, melhora o prognóstico da dor lombar e da hérnia. Afastamentos prolongados sem plano de reabilitação tendem a piorar a evolução. O objetivo do afastamento é tratar — e voltar.

Quando procurar o especialista

Se sua hérnia está limitando o trabalho, agende uma avaliação: o especialista conduz o tratamento, define objetivamente as limitações e o prazo estimado, e elabora o relatório clínico que sustenta o pedido.

Perguntas frequentes

O perito pode negar mesmo com hérnia? Sim, se entender que não há incapacidade para a sua função naquele momento. Daí a importância do relatório com limitações funcionais concretas.

Posso trabalhar em outra coisa enquanto recebo o benefício? Não. O benefício pressupõe incapacidade para o trabalho.

Fisioterapia conta na perícia? Sim. Comprovantes de tratamento em andamento fortalecem o pedido.


Este conteúdo é educativo e não substitui a consulta médica nem a orientação jurídica. Regras previdenciárias mudam; consulte o Meu INSS.

Referências

  1. Brasil. Lei nº 8.213/1991 – Planos de Benefícios da Previdência Social. https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l8213cons.htm
  2. Foster NE, et al. Prevention and treatment of low back pain: evidence, challenges, and promising directions. Lancet. 2018;391:2368-2383. PMID: 29573872. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/29573872/
  3. Hartvigsen J, et al. What low back pain is and why we need to pay attention. Lancet. 2018;391:2356-2367. PMID: 29573870. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/29573870/